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O nascimento das enfermeiras laicas em Portugal

O eclodir da guerra levou à criação de vários movimentos femininos de apoio aos soldados e feridos de guerra, assim como às suas famílias. No setor laico destacou-se a Comissão feminina “Pela Pátria”’ e no aristocrático católico, formou-se a “Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra”, mas houve outras.

O papel feminino durante a I República beneficia tradicionalmente as mulheres republicanas e livre-pensadoras, ou maçons, mas também monárquicas e católicas se evidenciaram em obras de apoio aos soldados e às suas famílias. Foi com o esforço de todas que acabou por ser possível formar os primeiros cursos de Enfermagem fora da alçada das Congregações Religiosas Femininas.

A médica Sofia Quintino foi uma das grandes impulsionadoras da retirada dos cuidados aos doentes da alçada da religião. na publicação “O radical” de 27 de novembro de 1910 já esta clínica escrevia: “Como todos sabem, a falta das enfermeiras laicas fazia-se sentir de há muito, e delas fizemos propaganda durante anos, convencidos como estávamos, e estamos, de que as congreganistas não podem satisfazer por modo algum as exigências desse cargo”. Só depois da implantação da República se generalizou a laicização da enfermagem.

A participação das mulheres no apoio aos militares foi impulsionada por Ana de Castro Osório – uma influente jornalista e defensora da participação de Portugal na Guerra – e a sua organização “Pela Pátria”, criada em 1914, com a colaboração das amigas Ana Castilho, Antónia Bermudes e Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinto.

“Pela Pátria” prestou assistência aos soldados mobilizados e foi uma das primeiras instituições em Portugal a organizar as mulheres para o esforço de guerra, fazendo agasalhos que depois enviava para a Frente entre outras iniciativas. Tentou igualmente mobilizar as entidades civis para auxiliar este esforço.

O resultado dos seus esforços foram depois herdados pela “Cruzada das Mulheres Portuguesas”, formada em 1916. Esta associação reunia quase uma centena de mulheres da elite republicana, entre as quais se contavam as esposas, filhas e parentes próximas dos membros do governo da União Sagrada com relevo para o Partido Democrático. Nasceu sob a égide do Governo e esteve sob sua proteção até ao período do Sidonismo.

As esposas dos republicanos mais influentes presidiam às comissões e obtiveram benefícios que facilitaram a organização e atuação. Foram-lhes concedidos edifícios, isenção de franquia postal, autorização para criar uma lotaria patriótica, direitos e garantias nacionais e internacionais que pertenciam exclusivamente à Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, pela Convenção de Genebra. Irá também formar enfermeiras, abrindo uma nova área profissional às mulheres.

Mal a Alemanha declarou guerra a Portugal, a 9 de março de 1916, surgiu também a “Assistência das Portuguesas às Vítimas da Guerra”, uma associação inteiramente feminina, mas ligada à aristocracia monárquica e ao catolicismo. As fundadoras tinham grande poder económico estando ligadas à propriedade fundiária, aos grandes negócios e à alta finança.

Eram mulheres habituadas à filantropia, à caridade e à beneficência. Apesar de estarem afastadas do espaço público desde o golpe republicano, a declaração de guerra da Alemanha a Portugal, levou à sua mobilização. Também quiseram formar enfermeiras, mas não o conseguiram de imediato por que o governo temia o poder das organizações não republicanas.

Participaram por exemplo ao lado das mulheres republicanas na iniciativa do jornal “O Século”, a “Venda da Flor”, para arrecadar fundos de apoio às suas diversas obras.

A “Assistência” presidida pela condessa de Ficalho, Maria Josefa de Mello (1863-1941), enveredou por outras vias de assistência. Entre elas a constituição das Madrinhas de Guerra, que se correspondiam com os militares e faziam chegar notícias às famílias, uma obra copiada por outros grupos femininos. O grupo fundou ainda a Casa da Assistência, a Casa Maternal e um Dispensário para acompanhamento médico, medicamentoso e alimentar.

Não desistiu também de apostar na formação de enfermeiras, junto da Cruz Vermelha. Maria Amélia Carvalho de Burnay cedeu para tal uma casa à CVP. O chamado Hospital Temporário da Cruz Vermelha foi instalado na Vila de Santo António, na Junqueira, em Lisboa, por uma comissão presidida por Joaquim Salinas Antunes.

O projeto contemplava a instalação de oito enfermarias, com uma lotação de 207 leitos, com material cedido pela condessa de Burnay, pela Sociedade da Cruz Vermelha e pelo Ministério da Guerra. O seu primeiro diretor foi Joaquim Augusto Ferreira da Fonseca e foi nessas instalações que foram formadas enfermeiras que foram para França com a Cruz Vermelha.

Em 1916 foi também instalado o Instituto Clínico da Cruzada das Mulheres Portuguesas em Campolide – frequentemente referenciado simplesmente como Instituto da Cruzada – e destinado à convalescença de feridos de guerra, funcionando como importante campo de experimentação para a organização do futuro Instituto de Reeducação dos Mutilados de Guerra. A partir de 1917 o instituto policlínico possuiu ainda um internato para a formação de enfermeiras militares para apoio do Corpo expedicionário Português.

De salientar que desde o início da guerra havia mulheres portuguesas a cumprirem funções de enfermeiras em hospitais franceses, sendo este conflito um marco na emancipação feminina no mundo ocidental.

Com os homens ausentes na frente, as suas posições nas fábricas e em diversas outras funções foram também assumidas por elementos femininos, o que se mostrou terreno fértil para as feministas mostrarem o valor da mulher e as suas capacidades de gestão da vida familiar, social e económica.

O exemplo do voluntarismo e empenho das mulheres dos países beligerantes que trabalhavam no campo, nas fábricas, nos serviços e no apoio aos exércitos, chegavam a Portugal através da imprensa e serviam de incentivo para a mobilização das portuguesas.

O pós-guerra destruiu muito desse impulso e as mulheres foram incentivadas a regressar aos lares e à maternidade, para repor a população perdida, reforçando as anteriores conceções de identidades de género.

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Ficha Técnica

  • Título: Postal da Grande Guerra - As portuguesas na Frente
  • Tipo: Programa
  • Autoria: Graça Andrade Ramos
  • Produção: RTP
  • Ano: 2016

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