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Um campo de concentração de alemães em Angra do Heroísmo

Uma das controversas medidas adotadas pelo governo português, após a declaração de guerra, foi a expulsão e apreensão de bens dos alemães que residiam em solo nacional. A decisão não foi pacífica, mas a campanha contra a presença alemã foi insistente.

O incêndio que em 18 abril de 1916 destruiu o edifício do Arsenal da Marinha, incluindo a Sala do Risco e o Depósito de Cartas, foi apresentado como obra de espiões alemães e todos os dias surgiam artigos na imprensa alertando para o perigo de ter em território nacional súbditos do Kaiser de ‘duvidosas lealdades’.

Mesmo depois da expulsão dos alemães falava-se da necessidade de “rigor” para com os portugueses que trabalhavam em firmas e companhias de capital maioritariamente alemão e pagos em marcos.

A 5 de Abril 1916 foi publicado um primeiro decreto, proibindo os nacionais das nações inimigas de entrarem em Portugal. Mas isso não bastava e Afonso Costa, que detinha a pasta das Finanças, acabou por ceder à pressão da opinião pública e a 13 de Abril assinou outro decreto-lei, com o número 2350, que determinava a sua expulsão. Publicado a 20 de Abril, após o incêndio do Arsenal da Marinha, dava cinco dias aos alemães para saírem do país.

Excluídos desta diretiva estavam os homens entre os 16 e os 45 anos, obrigados a apresentar-se às autoridades militares para serem “conduzidos para o lugar que for designado pelo Governo”, evitando-se que engrossassem as fileiras alemãs. Decretada foi também a apreensão dos seus bens.

Havia cerca de 970 súbditos alemães e 110 austro-húngaros em Portugal continental nos censos de 1910, além de turcos. Muitos deixaram o país, nos dias seguintes ao apresamento dos navios alemães e após o decreto de 20 de abril.

Ficaram sobretudo os nascidos em Portugal ou com família portuguesa, crentes que o Governo não os incluiria no grupo a ser internado. Muitos tinham filhos no exército português.

Entre os que ficaram estavam o comerciante Charles Timm; o industrial de cortiça Herold, do Barreiro; O comerciante Josef Schumacher tinha filhos no exército português. Havia ainda quem afirmasse nem ser alemão, como a família de Johann Hitzemann, nascido em Hannover, então uma cidade independente, e também com dois filhos a servir no Exército português.

Célebres ficaram os casos das famílias de Hermann Burmester, em Portugal há mais de um século ligados ao comércio de vinhos, e dos Orey,  detentores da maior firma de transportes do país, que viu três dos cinco irmãos nascidos e criados em Portugal serem expulsos. Os d’Orey, nunca tinham estado sequer na Alemanha, eram civis e consideravam-se portugueses, mas foram também abrangidas pelo decreto e perderam os bens, arrolados e colocados sob administração do Estado ou vendidos ao desbarato.

No dia 21 de abril muitos alemães ou descendentes de pai alemão começaram a abandonar o país. A 22 de abril, véspera de Domingo de Páscoa, um novo decreto retirava a “qualidade de cidadão português” aos filhos de pai alemão e anulava as naturalizações concedidas anteriormente, dando lugar a uma nova classe: a dos “desnacionalizados”. Mesmo assim cerca de 700 receberiam autorizações de residência.

A 25 de Abril os alemães radicados no continente e nas ilhas embarcaram para os Açores, acompanhados pelos membros das tripulações dos navios apresados que ainda estavam no continente.

A princípio foram internados em três campos distintos nas principais ilhas, mas posteriormente foram transferidos para o Castelo de São João Baptista, em Angra do Heroísmo. Até finais de 1917, deram entrada 551 prisioneiros, vindos de várias partes do Império Ultramarino e em agosto de 1918 eram já 724, o máximo registado.

As condições eram insalubres e sem qualquer higiene. Três pessoas morreram numa epidemia de febre tifóide e, ao longo dos quatro anos, a comunidade registou nove óbitos.

Veja aqui este Postal da Grande na íntegra.

Ficha Técnica

  • Título: Postal da Grande Guerra - Um campo de concentração de alemães em Angra
  • Tipo: Programa
  • Autoria: Graça Andrade Ramos
  • Produção: RTP
  • Ano: 2016

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