Capelães na frente, mas sem pré

Em Portugal o envio de capelães militares para frente quase esteve para não acontecer. O regime republicano jovem e anticlerical aceitou com dificuldade a presença de padres entre os soldados e na frente de batalha.

Os Impérios envolvidos na guerra – britânico, russo, alemão e austro-húngaro – eram maioritariamente cristãos e, em ambos os lados das trincheiras era normal pedir a bênção e o perdão de Deus para os soldados e pelos atos que iriam  cometer em batalha.

As forças daqueles países integravam, normalmente,  capelães que providenciavam acompanhamento espiritual, partilhando também as agruras da frente de combate. Só a França teve nas suas fileiras cerca de 25.000 sacerdotes e a Inglaterra providenciava sacerdotes de três denominações religiosas distintas.

Em Portugal, a questão era outra: o Governo de Afonso Costa, ferozmente republicano e anticlerical, opunha-se à participação de sacerdotes nas fileiras do Corpo Expedicionário Português.

A questão foi tema de discussão pública organizando-se iniciativas pró e contra a participação dos sacerdotes que contou com o envolvimento da imprensa. Foi a Inglaterra que forçou a mão do Governo e do episcopado, que fazia eco da vontade republicana. Ambos capitularam perante a pressão social e internacional e foi autorizada a presença dos sacerdotes que se voluntariassem como capelães militares e só a 30 de novembro de 1916 – após a conclusão da instrução do CEP –  Bernardino Machado e Norton de Matos assinaram o Decreto 2869 que permitiu aos comandantes das forças militares em operações de guerra incorporarem sacerdotes das diversas religiões.

Apenas a 18 de Janeiro de 1917, poucos dias antes de se iniciar o transporte da maioria do contingente para França, foi concretizada a regulamentação de assistência religiosa em operações de guerra com a publicação que impunha, no entanto, condições muito pouco dignas. Por exemplo os capelães, apesar de equiparados ao posto de alferes, não tinham direito a pré.

Por esta razão foi necessário criar a Comissão Central de Assistência Religiosa, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, com o objetivo de angariar fundos que subsidiassem e custeassem os capelães, as despesas do culto e da assistência religiosa.

Formou-se um pequeno corpo de capelães que teve a supervisão o Cónego da Sé da Guarda, José do Patrocínio Dias, também voluntário para seguir para França. Apesar de toda a organização o número de capelães no teatro de guerra foi diminuto quando comparando com os efectivos de assistência religiosa no exército britânico.

Por outro lado o exército, através do general Tamagnini de Abreu, proibiu a distribuição de alguns livros preparados para seguirem para França pelas estruturas religiosas, entre outras razões porque defendiam “doutrina contra as Instituições vigentes e à Constituição Política da República”.

Em 4 de Junho de 1918, foi publicado o Decreto 4489, que finalmente integrou no Exército os capelães voluntários com o vencimento correspondente, abrindo ainda a assistência religiosa aos hospitais, navios, asilos ou qualquer estabelecimento onde existissem doentes, feridos, mutilados ou repatriados de guerra. Este Decreto permitiu ainda a transferência para o serviço de assistência religiosa dos oficiais e praças necessários.

O Corpo de Capelães Voluntários teve um efectivo máximo de 36 padres.

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Complexo mineiro do ouro romano de Tresminas, em Vila Pouca de Aguiar
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Ficha Técnica

  • Título: Postal da Grande Guerra - Capelães sem pré
  • Tipologia: Programa
  • Autoria: Graça Andrade Ramos
  • Produção: RTP
  • Ano: 2016