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Palácio da Bolsa, a afirmação da burguesia do Porto

Não foi Palácio de reis e princesas, mas de comerciantes e do poder económico. E um símbolo da vitória da burguesia do Porto sobre o clero. O projeto do século XIX, de fachada neoclássica com influências do estilo palaciano inglês, demorou quase setenta anos a ficar concluído. Da monumental sala de visitas ao deslumbrante salão árabe, o Palácio da Bolsa é também um importante testemunho do gosto eclético na viragem do século. Que comece a visita ao icónico monumento da invicta.

Muito antes de ser lançada a primeira pedra do Palácio da Bolsa, em 1834, a arte de comerciar e as virtudes do comércio já faziam parte da identidade do Porto. Os mercadores, hábeis no seu ofício,  beneficiaram de privilégios reais contra a vontade do poderoso Bispo, uma espécie de adversário com quem iam medindo forças.

Na Idade Média tiveram de D. Dinis o reconhecimento da existência de uma praça, certificada depois por D. João I, o mestre de Avis que, nesta mesma cidade, estreita laços diplomáticos com Inglaterra contraindo matrimónio com Filipa de Lencastre. Este e outros acordos celebrados com o velho aliado são significativos para uma burguesia que, progressivamente, consegue mostrar-se imprescindível à dinâmica e ao crescimento da urbe, incentivando a produção e a exportação de produtos portugueses, estabelecendo, ampliando, diversificando relações com novos e antigos parceiros comerciais do reino. Um dos produtos que, a partir do século XVII, mais prosperidade trouxe à região e ao país foi o vinho do Porto, marca singular que o Marquês de Pombal patrocinou através da criação das Vinhas do Alto Douro.

Apesar dos monopólios régios, dos direitos e das isenções da nobreza e do clero, dos elevados impostos cobrados, os comerciantes conseguiram sempre organizar-se e afirmar o seu poder económico. A confirmação dessa vitória chegou no século XIX, quando D. Maria II lhes concede os terrenos do antigo Convento de São Francisco para ali construírem a sua sede. Joaquim Costa Lima foi o arquiteto escolhido para projetar o Palácio da Bolsa, símbolo da burguesia, do prestígio  e “da autonomia de uma cidade que foi renitente aos poderes instituídos” e que “determinou os destinos da nação“.

A obra terminou dois anos antes da República começar. Mesmo no centro do Porto, onde nunca houve um Palácio Real, instalara-se o mais monumental palácio que os comerciantes puderam pagar. Se no exterior o edifício seguia linhas neoclássicas, por dentro dominava um inesperado e sofisticado ecletismo, ornamentado com algumas das melhores peças das artes decorativas portuguesas. A intenção não era apenas a de seguir modas, mas de associar a burguesia a cultura, conhecimento e cosmopolitismo. Não é por acaso que a Associação Comercial do Porto continua a ser a sala de visitas da cidade. É a nossa vez de entrar nesta história com mais de cem anos.

Ficha Técnica

  • Título: Visita Guiada - Palácio da Bolsa
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural
  • Autoria: Paula Moura Pinheiro
  • Produção: RTP
  • Ano: 2017

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