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Conflito e convivência entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica
Conflito e convivência entre cristãos e muçulmanos na Península Ibérica
Ensino:

No espaço ibérico conviviam dois mundos com características distintas. O mundo muçulmano, centrado nas cidades e num forte dinamismo comercial, representava uma civilização urbana, mercantil. O mundo cristão caracterizava-se pela sua ruralidade. A vitalidade cultural e científica dos muçulmanos representava o cosmopolitismo das suas cidades, enquanto no mundo cristão a vida cultural girava em torno dos mosteiros e conventos.

O processo de Reconquista opunha duas forças que apresentavam a mesma causa para o confronto militar: motivos religiosos. Este confronto não opunha, somente, duas religiões. As civilizações que ocupavam o espaço ibérico divergiam ao nível civilizacional. Aspetos culturais, económicos, sociais evidenciavam dois mundos distintos e, no entanto, o contacto entre ambas gerou uma síntese cultural e civilizacional que caracterizou o espaço peninsular durante e após a Reconquista.

A civilização muçulmana impulsionou o crescimento da economia ibérica, através da rentabilização das atividades agrícolas, recebendo um forte estímulo com a introdução inovações técnicas, novas plantas e o desenvolvimento da atividade ganadeira.

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As atividades artesanais concentraram-se maioritariamente nos centros urbanos que se converteram em centros de produção industrial.  Destacaram-se a produção de têxteis, a cerâmica, o trabalho de cobre e couro. O comércio local, concentrado nas cidades, proporcionava o intercâmbio entre a cidade e o campo.  O comércio externo teve um extraordinário desenvolvimento ao ser inserido nas rotas comerciais islâmicas com o Oriente e África e com o comércio da Europa cristã.

A partir do al Andaluz os produtos que chegavam eram introduzidos nas rotas cristãs. Este dinamismo comercial foi fortalecido pelo sistema monetário que se desenvolveu, com base no dinar de ouro e do dírhem de prata. Os centros do poder político situavam-se nas cidades, destacando-se a Medina, a Mesquita e o Alcazar. Nos arrabaldes situavam-se os bairros periféricos. As cidades eram destacados polos culturais. Teoricamente uma parte substancial da população, sabia ler e escrever para poderem recitar os versos do Corão.

A sociedade islâmica era próspera e bem organizada apesar de revelar diferenças culturais e sociais dentro da mesma. Os seus governantes eram relativamente tolerantes com as populações não muçulmanas, como a judaica e a cristã.

Se nos primeiros séculos a economia cristã era uma economia de subsistência em que a base era a agricultura e a criação de gado, e a população habitava nas aldeias, a partir do século XI, com as conquistas territoriais a produção artesanal e os intercâmbios comerciais aumentaram. Mercados e feiras eram protegidas e promovidas pelos reis e senhores como forma de dinamizar as regiões onde decorriam, bem como forma de organização territorial, fixando populações à terra e incentivando o povoamento das regiões.

As peregrinações religiosas revitalizaram as regiões com a realização estratégica das feiras. A maioria da população não sabia ler nem escrever, sendo o clero o grupo que dominava o saber e tinha a seu cargo o ensino.

 

As comunidades sob domínio muçulmano

Após a ocupação muçulmana assinaram-se acordos entre os novos senhores e as comunidades cristãs e judaicas. Estas usufruíam de algumas regalias e direitos, mas, para poderem conservar as suas propriedades, tinham que pagar um imposto, a jizzia. O facto de não possuírem direitos iguais levou à conversão ao islamismo de muitos cristãos. Os que se converteram eram designados por muládis. A conversão da população cristã ao islamismo ocorreu sobretudo nas zonas urbanas e no sul do território.

A maioria da população permaneceu cristã, continuando a falar os dialetos locais do latim que, mais tarde, deram origem às línguas românicas locais, de entre as quais se destacam o português, o castelhano e o catalão. Os cristãos que mantiveram a sua religião eram conhecidos como moçárabes tendo sido tolerados até ao exacerbar da Reconquista.

As diferenças entre moçárabes, judeus e muçulmanos não impediram o desenvolvimento de uma coexistência, grosso modo, pacífica tendo-se inúmeros moçárabes e judeus destacado em diversas áreas do conhecimento e da administração, assim contribuindo para o desenvolvimento do mundo muçulmano.

 

Comunidades sob domínio cristão

Enquanto a realidade socioeconómica muçulmana apresentava uma forte componente urbana e comercial, o espaço cristão caracterizava-se por ser mais rural. Os muçulmanos a viverem sob domínio cristão, os mudéjares, viam a sua situação piorar em épocas de ataques islâmicos em larga escala sobre territórios controlados pelos cristãos, como aconteceu aquando da investida dos almorávidas no século XI e da dos almóadas no século XII.

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Até ao século XIII, as comunidades judaicas encontravam-se relativamente bem integradas, estando sob a proteção direta do rei. Em Portugal, surgiram medidas discriminatórias com D. Afonso II, já no século XIII.

O resultado de uma coexistência mais ou menos pacífica possibilitou que os dois mundos contactassem e usufruíssem da diversidade cultural que ambos representavam.

Síntese:

  • A convivência e contacto entre os dois mundos permitiu o intercâmbio cultural e científico que se refletiu nas artes, ciências e inovações técnicas.
  • A coexistência entre as comunidades era quebrada sempre se verificavam avanços militares e movimentos de radicalismo religioso, de ambas as partes.
  • Os contactos entre o mundo muçulmanos e cristão geraram uma cultura de síntese no espaço ibérico.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: Apontar, no contexto da Península Ibérica, os contrastes entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. Caracterizar a formas de relacionamento entre cristãos e muçulmanos no território ibérico (conflito e convivência).
  • Autoria: Associação dos Professores de História/ Marta Torres
  • Produção: RTP/ Associação dos Professores de História
  • Ano: 2021
  • Imagem:: Iluminura medieval com representação da Batalha de Alarcos ocorrida perto de Ciudad Real em 1195.