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A poesia que escandalizou a censura e condenou Natália Correia

No Natal de 1965, um livro chama a atenção dos censores do regime. Tem mais de 500 páginas e um rol de versos malditos, com referências explícitas a atos sexuais e outras obscenidades ditas em puro vernáculo. São textos dos cancioneiros medievais, vários inéditos e contemporâneos, recolhidos por Natália Correia para a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Um gesto em nome da liberdade julgado como ofensa "aos bons costumes".

A história deste livro proibido estava escrita desde o início. Natália Coreia e Fernando Ribeiro de Mello, editor da Afrodite, sabiam por experiência própria, que os censores condenavam obras ao esquecimento quando, nas suas leituras, encontrassem palavras, ideias ou quaisquer outros indícios que desrespeitassem os valores instituídos pelo Estado Novo. Era pois previsível que um projeto a envolver sátira e erotismo, muito embora em forma poética, resultasse em matéria inflamável.

Claro que a publicação da incorreta antologia, pretendia divulgar matéria com mais de sete séculos de história, composições originais de trovadores, até aí consideradas imorais, que a escritora recolheu, anotou, organizou e, em certos casos, adaptou. A estes juntou versos contemporâneos e inéditos de autores destacados como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, David Mourão-Ferreira, António Botto, Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Ernesto de Melo e Castro e Maria Teresa Horta.

Quando chegou às livrarias, a antologia anunciava-se  na cinta promocional como o livro que continha toda “a poesia maldita dos nossos poetas”, “as cantigas medievais em linguagem atualizada” , “dezenas de inéditos” e ” a “revelação do erotismo em Fernando Pessoa”. Três dias depois, desaparecia de circulação devido ao seu “caráter pornográfico”, ou seja, às muitas referências a órgãos genitais, atos sexuais, adultério e ao uso de um vernáculo impróprio dos “bons costumes” do país. A polícia política apreendeu os exemplares da primeira edição, com ilustrações do poeta e pintor Cruzeiro Seixas, e a escritora, o editor, e alguns dos poetas representados foram processados e condenados em Tribunal Plenário, num julgamento que se arrastou durante mais de seis anos e que terminou, de forma simbólica, com alguns exemplares a serem queimados.

Ao mesmo tempo que decorria o processo, o livro que tanto ofendia o “pudor geral”e a “moralidade pública” andava em leituras clandestinas, numa reedição pirata, planeada desde o princípio pelo jovem editor portuense, Ribeiro de Mello, com o conhecimento de Natália Correia. Afinal, o que contava para a escritora era, acima de tudo, a liberdade. Mais de meio século após o escândalo literário, recordamos as suas palavras.

Ficha Técnica

  • Título: Literatura Aqui - Natália Correia
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural - Reportagem
  • Produção: até ao Fim do Mundo
  • Ano: 2019

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