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Antero de Quental e o início do pensamento moderno em Portugal

Ficou conhecido pelos sonetos que escreveu, mas a voz revolucionária de Antero de Quental não inflamava apenas a sua veia poética. Orador brilhante desde os tempos universitários, dizia alto o que pensava sobre os excessos do romantismo, as instituições e o peso das tradições na sociedade do século XIX. Antero queria romper com o fatalismo, encontrar um novo destino para Portugal. Não estava sozinho nas preocupações e nos ideais socialistas que defendia. A seu lado tinha uma das mais importantes gerações de intelectuais de sempre.

Havia no último quartel do século XIX um Portugal velho que era preciso refundar. Antero de Quental tomou consciência dessa necessidade ainda muito jovem, nas leituras inspiradoras que fez de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, no conhecimento das recentes correntes a surgir na Europa. O seu espírito fervilhava com o socialismo e o realismo de Proudhon, o positivismo de Comte, a filosofia de Hegel. As posições que vai assumir como poeta e intelectual contra os ideais do romantismo e contra o poder instituído transformam-no num “grande líder estudantil” de Coimbra.

Nas Odes Modernas, de 1865, Antero defendeu uma “missão revolucionária para a poesia”, e nas Conferências do Casino, organizadas por ele seis anos mais tarde, juntamente com antigos e novos seguidores reunidos no Cenáculo, apresentou “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, um dos seus “textos fundamentais”. Num discurso brilhante explicou como o catolicismo repressivo saído do Concílio de Trento, a Inquisição e a expulsão dos judeus do território condenaram Portugal e Espanha ao distanciamento dos grandes centros europeus.

Se as Odes tinham antes provocado reações críticas dos conservadores, nomeadamente do seu antigo professor e poeta Feliciano de Castilho, estes encontros, considerados subversivos “por sustentar doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições do Estado”, foram interrompidos e proibidos pelas autoridades. 

Antero de Quental dizia “pertencer à primeira geração que em Portugal saiu conscientemente da velha estrada da tradição”. Referia-se à Geração de 70, uma das mais importantes de sempre da cultura portuguesa, em que se encontravam Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Manuel de Arriaga, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins, entre outros. Mas de todos e entre todos, apenas Antero de Quental, o poeta das ilhas atlânticas, é considerado “o inventor do pensamento moderno em Portugal”.

Ficha Técnica

  • Título: Câmara Clara
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural - Reportagem
  • Autoria: Paula Moura Pinheiro
  • Produção: RTP
  • Ano: 2010

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