António Ramos Rosa, o poeta que recusou ser um funcionário cansado
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Abandonou a vida de funcionário de escritório para ser trabalhador das palavras a tempo inteiro. Límpidas, meticulosas, depuradas, "com uma certa força nua", dizia. António Ramos Rosa encontrou na poesia a sua matéria vital, espaço de resistência e sobrevivência que o definia e fixava a um tempo de encantamento e contemplação. Refletir sobre a essência, regressar à natureza e aos elementos mais simples - o ar, a terra, a luz e a água -, fazer do poema uma viagem cósmica, é a marca poética que nos deixou. Sem muitos versos biográficos, confessionais ou circunstanciais, sublinha esta reportagem.

No princípio eram os poemas de expressão mais lírica, empenhados nas questões políticas e sociais, aproximados a uma estética neorrealista; alguns com traços próprios do surrealismo. Depois, António Ramos Rosa entrou numa segunda consciência poética, de descoberta e contemplação da natureza, a refletir o mundo, a desenhá-lo nas palavras que amava e trabalhava em apurado rigor e ardor. A entrega total à poesia traduziu-se numa imensa obra com dezenas de títulos, publicados ao longo de mais de 50 anos.

Escrevia desde os tempos de juventude, mas o primeiro livro, “O Grito Claro”, surgiria apenas nos 34 anos, quando consegue libertar-se do quotidiano sufocante de empregado de escritório. «Uma vida muito dura, que tirava as forças que tinha para escrever», desabafava numa entrevista, em 1989, um de muitos excertos que recuperamos nesta peça.

“O Funcionário Cansado”, de António Ramos Rosa
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Diante do ofício da escrita, o poeta levantava-se muito cedo e passava as manhãs inteiras a escrever, abstraído no ritmo torrencial, quase obsessivo, da criação. Tornara-se finalmente no que sempre fora, um trabalhador das palavras, «fiel a uma geografia depurada», diz aqui Ana Paula Coutinho, professora da Universidade do Porto. Porque António Ramos Rosa, que também foi ensaísta e tradutor, nunca pretendeu ser o centro dos seus poemas. Ao Algarve, à terra natal onde nasceu em 1924, nem um título dedicou. E, no entanto, quantos versos serão habitados por estes lugares da sua infância? Comecemos por o escutar.

Nas palavras de António Ramos Rosa
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Sophia, a menina do mar
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Ficha Técnica

  • Título: Nada Será Como Dante - António Ramos Rosa
  • Tipologia: Extrato de Programa Cultural - Reportagem
  • Produção: até ao Fim do Mundo
  • Ano: 2021