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Fernando Pessoa e o jogo da criação de Álvaro de Campos

Sabemos que Álvaro de Campos é o poeta que elogia o triunfo das máquinas, o futurista colaborador da revista Orpheu, o heterónimo que gosta de polemizar e que se autocritica com distanciamento. Engenheiro naval, alto, magro, viajado, fumador de ópio, em tudo parece distinguir-se do seu criador. Mas Fernando Pessoa usou facetas da sua biografia na construção desta máscara. A começar por Tavira, cidade algarvia onde fez nascer a 15 de outubro de 1890 o «seu velho e infeliz amigo».

«Cheguei finalmente à vila da minha infância./Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei. /(Tudo isto levou o espaço de tempo de um olhar cansado). Tudo é velho onde fui novo.» escreve Álvaro de Campos nas suas “Notas sobre Tavira”, cidade algarvia onde nascera no dia 15 de outubro de 1890.

Com uma certa melancolia, o mais viajado dos heterónimos regressa ao lugar onde foi primeiro feliz, o mesmo onde Fernando Pessoa, ainda rapazinho, presenciara as crises de loucura da avó Dionísia. Viera de Durban visitar Portugal e ficara com a família abastada de Tavira, de judeus e maçons. Foi um ano inteiro a guardar este temor dentro de si, o medo de enlouquecer; recordações imperfeitas de um tempo que devia ser de «quintal e praia».

No espelho de Álvaro de Campos vai reescrever e idealizar também esta parte da sua história. A biografia a começar no sul, sem fantasmas. O mais que lhe faltava, que escolhera não ser ou não conseguiu ser, transferiu também para o engenheiro da “Ode Triunfal”.  Teresa Rita Lopes, investigadora e autora de uma das primeiras teses de doutoramento que se fizeram sobre o poeta, não hesita em dizer que Campos é o «retrato melhorado de Fernando Pessoa».

Ficha Técnica

  • Título: Nada Será Como Dante - Álvaro de Campos
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural - Reportagem
  • Produção: até ao Fim do Mundo
  • Ano: 2020

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