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O condado Portucalense e a sua dependência do reino de Leão
O condado Portucalense e a sua dependência do reino de Leão
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Integrados no Reino de Leão, os territórios pertencentes ao Condado Portucalense surgiram num contexto de guerra. A partir de 1096, D. Henrique, um cavaleiro franco, ficou à frente do Condado, enquanto vassalo de Afonso VI. Situado numa zona de fronteira com o Islão era fundamental assegurar a proteção das populações com forças militares que pudessem defender e atacar os territórios.

Desde o século VIII a península Ibérica era um espaço onde duas crenças religiosas desempenharam um papel fundamental na definição territorial do mesmo. Neste contexto de luta com fatores religiosos subjacentes, a divisão territorial e política não foi linear, mas as disputas não se circunscreviam a fatores religiosos. No seio de cada uma das duas frentes, cristã e muçulmana, as divergências e oposições faziam-se sentir. As alianças entre cristãos e muçulmanos resultavam dos interesses que cada governante tinha no controle e defesa dos territórios que administrava.

Após a conquista de Toledo em 1085, os reinos muçulmanos da península Ibérica, alarmados com as vitórias cristãs pediram auxílio aos almorávidas que, liderados por Yusuf ibn Tashfin, vindos do norte de África desembarcaram na península.  No final do século XI, as investidas almorávidas, inseridas num movimento religioso fundamentalista muçulmano, obrigaram o rei de Leão e Castela, D.  Afonso VI, a pedir auxílio militar a cavaleiros francos.

Do lado cristão, a Ordem religiosa de Cluny desenvolveu um papel fundamental no movimento populacional que trouxe à península não só guerreiros cristãos que combatiam para libertar o território ocupado, como também outros, oriundos de estratos sociais diferenciados que, deste modo, participavam no povoamento e na defesa territorial fronteiriça.

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A presença de cavaleiros francos tornou-se mais evidente a partir da conquista de Toledo, em 1085, atraídos pelas riquezas que proporcionaram a conquista da cidade, o desejo de combater os muçulmanos e a procura de prestígio pessoal. Como recompensa pelo auxílio prestado aos reis ibéricos alguns cavaleiros receberam terras ou outras recompensas.

Foi neste contexto que surgiram na península Ibérica os cavaleiros francos D. Raimundo e D. Henrique. Devido ao seu elevado estatuto social, D. Afonso VI concedeu-lhes em momentos diferentes, territórios designados por condados que podiam administrar com relativa autonomia. Receberam, também, em casamento as suas filhas, D. Urraca e D. Teresa.

D. Raimundo recebeu em casamento a filha legítima D. Urraca, e o governo da Galiza no qual se incluía, a sul, os condados de Portucale e de Coimbra. A autoridade do conde D. Raimundo sobre o condado Portucalense e de Coimbra, este último consideravelmente reduzido após as investidas almorávidas, não durou muito tempo.

Em 1096 Afonso VI entregou o governo do Condado Portucalense e do Condado de Coimbra a D. Henrique, a título hereditário, assim como a mão de D. Teresa, sua filha ilegítima. Enquanto vassalo de Afonso VI, o conde D. Henrique tinha de lhe prestar obediência, auxílio militar e defender e alargar o território  que lhe tinha sido atribuído.

A concessão do condado possibilitava a D. Henrique a transmissão do mesmo a um sucessor podendo governá-lo com alguma autonomia. Este tipo de concessão hereditária não era usual nos reinos de Leão e Castela, mas sim na região de onde provinha D. Henrique, a Borgonha. Tinha sempre que prestar serviços vassálicos ao rei de Leão, tal como o auxílio na guerra contra os inimigos e jurar total fidelidade.

D. Henrique tornou-se vassalo direto de Afonso VI e esta ligação implicava diretamente D. Henrique na condução da guerra contra os muçulmanos. Estes condados, à época, tinham como limites territoriais os rios Minho e Mondego.

A escolha que Afonso VI fez na pessoa de D. Henrique, prendeu-se, possivelmente, com o facto deste se revelar um excelente chefe militar, mas também um exímio chefe político. Foi apoiado pelos senhores de Portucale, estimulou iniciativas comerciais nas zonas urbanas e apoiou a reforma monástica cluniacense, tal como Afonso VI de Leão fizera, com a difusão da liturgia romana, em detrimento da hispânica, favorecendo os monges de Cluny.

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Para além dos mosteiros que adotaram os costumes e a liturgia monástica de Cluny, outros foram fundados, como o de Rates, Vimieiro, Santa Justa de Coimbra. O conde D. Henrique defendeu e consolidou os interesses do Condado Portucalense tentando ganhar, progressivamente, uma certa autonomia face ao reino de Leão. Morreu em 1112 em Astorga.

D. Henrique e D. Teresa, tiveram, entre outros filhos, D. Afonso Henriques, que viria a ser o primeiro rei de Portugal. Já o filho de D. Raimundo e D. Urraca, tornar-se-ia, mais tarde, no rei e imperador Afonso VII.

Síntese

  • No contexto das investidas almorávidas Afonso VI rei de Leão, pediu militar aos reinos cristãos. Cavaleiros francos como D. Raimundo e D. Henrique, chegaram à península Ibérica no final do século XI.
  • D. Henrique foi recompensado pelo auxílio militar prestado, casando com D. Teresa filha de Afonso VI, e recebeu os condados Portucalense e de Coimbra.
  • A ordem religiosa de Cluny foi uma das ordens que se empenhou na expulsão dos muçulmanos do território peninsular.
  • D. Henrique revelou-se um hábil chefe militar e político, recebendo o apoio dos senhores portucalenses, apoiando a ordem de Cluny. Defendeu e consolidou os interesses do Condado Portucalense face ao reino de Leão.

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Ficha Técnica

  • Título: Localizar no espaço o condado Portucalense, sublinhando a sua dependência política em relação ao reino de Leão.
  • Autoria: Associação dos Professores de História/ Marta Torres
  • Produção: RTP/ Associação dos Professores de História
  • Ano: 2021
  • Imagem: D. Henrique e D. Teresa.