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Bocage: mais do que sátira, erotismo e anedotas

O que se sabe de Manuel Maria Barbosa do Bocage é pouco e redutor. Afamado pelos poemas eróticos escritos numa linguagem por vezes obscena, transformado em personagem de anedotas devido à vida aventurosa, o poeta de Setúbal continua preso a uma imagem quase caricatural. É preciso então dizer que Bocage era um espírito livre, progressista, inconformista e autodidata que recusou favores palacianos e chegou a vender os poemas na rua. Escreveu até ao fim dos curtos 40 anos de vida. Poemas de amor, fábulas, peças de teatro. Da sua autoria é também o primeiro manifesto feminista português. Outro Bocage para descobrir aqui.

Bocage fez-se lenda logo no século em que viveu. O rapaz «magro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, (…) nariz alto no meio e não pequeno», gostava de transgredir. Na vida e nos versos que escrevia. Esta veia rebelde havia de criar-lhe problemas com a autoridade. Perseguido pela censura, acusado de pertencer à Maçonaria, viu-se por duas vezes enviado para a prisão. Mas nem a Inquisição, nem o poderoso intendente Pina Manique impediram o poeta de defender ideias progressistas ou de criticar o poder e os costumes da sociedade setecentista.

Desafortunado de amores e riquezas, marinheiro sem vocação nem glória, Manuel Maria Barbosa do Bocage cultivou uma atitude boémia e desregrada, mantendo-se sempre um espírito livre, irreverente, diferente dos outros. Não cedia a interesses, muito menos pactuava com facilitismos ou privilégios: preferia andar mal vestido, vender poemas na rua, participar nas tertúlias dos cafés, onde se discutiam ideias, a figurar nos circuitos palacianos juntamente com oportunistas à procura de “fama imediata”.

Bocage tratou a poesia com o mesmo temperamento. Expressava-se livremente e também por isso pagou. O lápis censório cortou-lhe páginas inteiras do trabalho. Nem assim vacilou no sarcasmo, na sátira, nas composições eróticas, ou conteve a linguagem corrosiva, obscena, por vezes demasiado explícita, considerada até pornográfica. Admirado por uns, detestado por outros, colou-se ao poeta nascido em Setúbal uma imagem controversa, anedótica, quase caricatural.

Das histórias que se contam de Bocage, muitas nem são verdadeiras, como alguns dos poemas que lhe atribuem, sublinha o seu biógrafo na reportagem. Daniel Pires quis justamente resgatar outro Bocage para a literatura portuguesa, voz singular dos sonetos de amor de inspiração camoniana, autor de fábulas fantásticas, dramaturgo e excelente tradutor. Ainda hoje não sabemos que a ele se deve o primeiro manifesto feminista português. Bocage, um homem à frente do seu tempo, avesso a convenções, progressista, precursor do Romantismo. É suficiente para o resgatar do anedotário nacional?

Ficha Técnica

  • Título: Literatura Aqui
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural - Reportagem
  • Produção: até ao Fim do Mundo
  • Ano: 2015

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