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Outra Escola: a filosofia do aborrecimento

A falta de motivação dos alunos perante a escola tem as mais variadas explicações: curriculos extensos, aulas pouco interativas, matérias desinteressantes para o dia a dia. O resultado acaba muitas vezes em percentagens elevadas de insucesso, retenções e abandono escolar. Problemas para os quais não foi encontrada ainda uma estratégia clara de combate.

Como travar o insucesso nas escolas? O debate não é recente e os argumentos contra a chamada cultura de retenção multiplicam-se, até por muitos considerarem que o insucesso está diretamente relacionado com o meio sociocultural dos alunos, tratando-se, por isso, de uma questão de justiça social. Economicamente é uma prática muito cara para o Estado, sendo ainda pedagogicamente ineficaz, pois quem fica retido um ano repete quase sempre a mesma experiência negativa.

Mas de onde vem, afinal, a raiz do problema? Sobretudo do desinteresse que os alunos revelam pelo sistema de ensino. Os educadores verificam que eles “já chegam à escola com um não” e que nem sequer “percebem porque é que vão à escola”. Dizem que só ficam contentes quando não têm aulas. Não fazem ideia das área que querem seguir. Só esperam pela diversão da noite e dos fins de semana.

Escutando alguns adolescentes, ouvimos falar com a maior naturalidade em chumbos por faltas, em indisciplina dentro da sala de aula, em cumprir apenas para não serem repreendidos pelos pais. A dissociação com o professor é por vezes completa. “Fico a pairar durante uma hora e meia”. Uma espécie de filosofia do aborrecimento que mina todo o processo. Aulas expositivas que são “uma seca”, falta de integração nos métodos de aprendizagem e excesso de matéria que permite apenas decorar e esquecer.

São jovens sem perspectivas de futuro. Passam tempo e o tempo passa por eles, tal como passa pelos professores que vivem também em frustração, muitos deles, por métodos porventura algo desadequados ao que é hoje a natureza humana dentro das escolas. Um espaço que devia ser inclusivo é notoriamente uma instituição a precisar ser repensada. Pedagogos colocam questões como: o que é que cada um espera da escola? Algo que deve ser tido em conta. Uma escola deve refletir a vida.

O ensino público deve promover sucesso, mas sobretudo combater o insucesso, já que a primazia é a da cooperação e inclusão e não a da competição. Neste reequacionar do funcionamento escolar basta lembrarmos porque é dividido o calendário letivo tal como o conhecemos para percebermos como está desadequado: simplesmente porque era em outubro que as vindimas acabavam. Findo o trabalho no campo, já se podia ir à escola. Foi delineado à medida das sociedades agrícolas. Mudam-se os tempos…

Ficha Técnica

  • Título: Outra Escola - episódio 13
  • Tipo: Programa
  • Autoria: Filipa Reis / João Miller Guerra / Maria Gil
  • Produção: Vende-se Filmes
  • Ano: 2019

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