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Falácias informais (parte 1)
Falácias informais (parte 1)
Ensino:

Uma falácia é um mau argumento que, em diversos contextos e por diferentes motivos, temos tendência a pensar que é bom. Assim, uma falácia não é apenas um mau argumento; é antes um mau argumento frequentemente enganador.

O que são falácias informais?

Algumas falácias informais com formas lógicas válidas:

– petição de princípio

– falso dilema

– derrapagem

Costuma-se dividir as falácias em dois grandes tipos: as formais e as informais. As falácias formais são os argumentos que parecem válidos sem o serem, pelo que o erro deste tipo de falácias reside na forma lógica. Por sua vez, as falácias informais contêm erros que não dizem respeito à sua forma lógica mas a outros aspetos geralmente relacionados com o seu conteúdo, pelo que muitas falácias informais podem ter formas lógicas válidas.

Eis alguns exemplos de falácias informais cuja forma lógica é válida.

PETIÇÃO DE PRINCÍPIO

Existe um ser criador do mundo, omnipotente, omnisciente e infinitamente bom.

Logo, Deus existe.

Este argumento é válido, pois é impossível a sua conclusão ser falsa, caso a premissa seja verdadeira. Porém, isso acontece apenas porque aquilo que se diz na conclusão é o mesmo que se diz na premissa, só que por palavras diferentes. Assim, de uma forma algo disfarçada, começamos por afirmar na premissa o que acabamos por encontrar na conclusão. Daí o nome da falácia: afirmamos na conclusão o princípio de que partimos (o que temos em alguma das premissas). Num argumento assim, as premissas não acrescentam qualquer razão para se aceitar a conclusão, pois quem não aceita a conclusão também não aceitará as premissas. Ele é enganador precisamente porque parece que a premissa diz algo diferente da conclusão.

FALSO DILEMA

És a favor da monarquia ou contra a monarquia.

Mas não és a favor da monarquia.

Logo, és contra a monarquia.

Também este argumento é formalmente válido (tem a forma do silogismo disjuntivo), pois a conclusão tem de ser verdadeira caso as premissas também o sejam. Por isso muitos o consideram persuasivo. Contudo, há um problema com a primeira premissa: ela parece verdadeira mas não o é, pois são-nos apresentadas duas possibilidades em alternativa quando há outras, além dessas duas. Por exemplo, uma terceira possibilidade é não sermos a favor nem contra a monarquia, seja porque estamos indecisos, seja porque não sabemos o suficiente para tomar posição sobre o assunto. Na verdade, muitas pessoas não são a favor nem contra. Por isso estamos perante um falso dilema e não perante um verdadeiro dilema, isto é, perante uma escolha entre duas e só duas opções, ambas insatisfatórias.

DERRAPAGEM

Se aprecias filmes violentos, então a violência não te incomoda.

Se a violência não te incomoda, então não és uma pessoa sensível.

Se não és uma pessoa sensível, então acabas por maltratar os outros.

Logo, se aprecias filmes violentos, então acabas por maltratar os outros.

Este argumento tem a forma do silogismo hipotético, uma forma de inferência válida. Isso fá-lo parecer um bom argumento. É, todavia, falacioso. Para se ver porquê temos de prestar atenção ao que é afirmado em cada uma das premissas. Pensando com cuidado, verificamos que, embora cada uma delas possa conter, aos olhos de muitas pessoas, algum grão de verdade, não deixam de ser algo exageradas: é um exagero considerar que as pessoas que apreciam filmes violentos não se incomodam com a violência ou que as pessoas insensíveis acabam por maltratar os outros. Assim, somos levados a uma conclusão inesperada à custa da acumulação, em cada uma das premissas, de pequenas imprecisões.

Em resumo:

  • As falácias informais são argumentos que parecem frequentemente bons sem o serem.
  • O carácter falacioso das falácias informais decorre de outros aspetos que não a sua forma lógica.
  • Algumas falácias informais com formas lógicas válidas são a petição de princípio, o falso dilema e a derrapagem.
  • O carácter falacioso da petição de princípio decorre de se afirmar à partida (em alguma das premissas) o que se encontra na conclusão, ainda que por palavras diferentes.
  • O carácter falacioso do falso dilema decorre de se apresentar numa das premissas a disjunção entre duas e apenas duas variáveis, quando na realidade são concebíveis mais do que duas.
  • O carácter falacioso da derrapagem decorre de, em cada uma das premissas, se irem acrescentando pequenas imprecisões, cuja acumulação acaba por resultar numa conclusão inesperada.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: Falácias informais (parte 1)
  • Área Pedagógica: Filosofia
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Aires de Almeida
  • Produção: RTP
  • Ano: 2020
  • Imagem: Foto de Anna Shvets no Pexels