Luísa Ducla Soares: a história da contadora de estórias
Quis ser domadora de leões, mas a sorte escolheu domadora de palavras. Daquelas que dão forma a histórias onde tudo pode andar de pernas para o ar. Luísa Ducla Soares entrou no mundo da literatura infantil há cinquenta anos e continua a ter ideias, muitas ideias para desembrulhar em lengalengas, trava-línguas, adivinhas, contos e poesia. Matéria dos seus muitos livros memoráveis que continuam a fazer dos mais pequenos grandes leitores.
Muito tempo passou desde as histórias inventadas para o seu primeiro interlocutor, o irmão mais novo, difícil de contentar. A verdade é que os enredos estranhos e divertidos prenderam a atenção do endiabrado rapaz que a obrigava a alongar os contos, contados em doses diárias, como se fossem folhetins. Luísa tinha 13 anos, alguns poemas publicados no jornal do liceu Francês, onde estudava em Lisboa. Estava a crescer, gostava de ler e de escrever. Mas naquelas histórias que não transpôs para o papel, estava o princípio de uma coisa maior.
Quando foi para a Faculdade, ficou indecisa entre letras e ciências. Atirou uma moeda ao ar e deixou a sorte decidir. Formou-se em Filologia Germânica, foi jornalista, tradutora, trabalhou na Biblioteca Nacional. Imaginava-se a escrever romances, sobretudo poesia. Certo dia, as histórias pequeninas voltaram. José Saramago editou “A História da Papoila” e pediu-lhe mais seis. Por causa dele, repete nesta reportagem, o vírus da literatura infantil ficou para sempre agarrado a ela.
Multipremiada depois, recusou por razões ideológicas o prémio que o regime de Marcello Caetano quis atribuir a este primeiro livro para crianças. Queria distância deste poder político repressivo que lhe cortava os textos publicados no Diário Popular, relembra a autora que chegou a estar presa em Caxias por participar numa manifestação estudantil.
Entre contos, lengalengas (muitas recuperadas da tradição oral), trava-línguas, adivinhas e os poemas que agora escreve em cima da sua gata, Luísa Ducla Soares já publicou mais de uma centena de livros infantis, muitos incluídos no Plano Nacional de Leitura. Nestes cinquenta anos que leva de vida literária, a autora, que não vive sem escrever, decidiu partilhar memórias, como pedaços de uma grande história. A sua história. A inspiração é como o pó que anda no ar, diz com um sorriso de quem continua a ter muito para contar. De preferência, a rimar. E este fim vai acabar mesmo assim.
Net, Net, Net, Net, coisas velhas são um frete!
Fui pescar na Internet com o meu computador, mas caí dentro do mar!
Ai, que horror, que horror, que horror!
Encontrei um tubarão com cem dentes de leão.
Encontrei uma baleia: era tão grande e tão feia!
Encontrei um peixe-espada só a dar-me espadeirada.
Ui, nadei a sete braços a fugir da Internet, deitei o computador para dentro da retrete!
Net, Net, Net, Net, Net, Net, coisas novas são um frete!
Temas
Ficha Técnica
- Título: Nada Será Como Dante
- Tipologia: Extrato de Magazine Cultural - Reportagem
- Produção: até ao Fim do Mundo
- Ano: 2023