“Clepsidra”, de Camilo Pessanha
"Clepsidra": a contemplação melancólica na poesia de Camilo Pessanha traduz-se na fusão do estado de espírito com a paisagem envolvente. Os sentimentos são insinuados e os versos obedecem a uma musicalidade própria do Simbolismo, numa tonalidade própria que caracteriza o autor.
Resumo
Clepsidra, o único e pouco extenso conjunto de poemas de Camilo Pessanha, foi, desde 1920, objeto de diversas edições: a primeira é da responsabilidade de Ana de Castro Osório, amiga do poeta que, na época, acedeu a menor número de composições.
A partir de 1945, João de Castro Osório passa a ser o responsável pela organização, sendo definitiva a edição de 1969.
De acordo com Jacinto do Prado Coelho, o título Clepsidra (relógio de água), parece encontrar explicação em um verso do francês Charles Baudelaire no qual se lê “o abismo tem sempre sede; a clepsidra esvazia-se” (Coelho, 1982, p. 818), acentuando a ideia de que tudo é passageiro – o homem e o tempo – , conceito recorrente.
Na obra são notórios temas como o exílio, a saudade e a submissão ao destino. O sentimento amoroso de frustração tem vindo a ser tentativa de enquadramento na vida pessoal do poeta por parte daqueles que, com maior ou menor propriedade, procuram nos textos a alusão ao amor não correspondido por Ana de Castro Osório.
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É característica do simbolismo recorrer a alegorias e imagens. Outro aspeto frequente consiste na apresentação de certo tipo de paisagem pouco povoada ou de menor nitidez. A poesia simbolista é marcada pela musicalidade, marca visível na antologia.
Temática e texto
No soneto “Floriram por engano as rosas bravas”, é pano de fundo a paisagem gélida do inverno, utilizada em diversas composições.
Verifica-se a conclusão de estrofes com o recurso à interrogação “Em que cismas, meu bem? […]” (Est.1; v.3); “As vozes com que há pouco me enganavas?” (Est.1; v.4); à exclamação “Castelos doidos! Tão cedo caístes!…) (Est. 2; v.1); “Perscrutaram nos meus, como vão tristes!” (Est.2; v.4); e às reticências com que terminam alguns versos. A pontuação salienta o cariz de mistério e de indefinição, a divisão entre a dor causada pelo elemento feminino e a admiração ante uma paisagem alva.
O estado de espírito é de angústia e de solidão, consequência de um amor impossível. A brancura e a ausência de nitidez na paisagem acentuam sentimentos como os de isolamento e de exílio – as rosas, símbolo do amor, chegaram fora da sua época “por engano” e, com o vento, perderam as pétalas. A par das flores destruídas pelo tempo invernoso, acresce a imagem dos castelos que se desmoronam assistindo-se, portanto, ao fim de uma aspiração a um sentimento impossível, expresso no olhar triste da figura feminina.
Os tercetos associam o espaço frio e branco da estação a algo que não sobrevive por, à semelhança das rosas, ter surgido fora do tempo certo. A mulher, transformada em vulto no final, acentua a impossibilidade de afeto.
A musicalidade da composição, para lá do seu ritmo, resulta ainda do recurso à aliteração em “v” “No Inverno, veio o vento desfolhá-las…” (Est.1; v.2).
Em “Quando voltei encontrei os meus passos” o cenário é o de uma praia unicamente povoada pelo sujeito poético, aspeto presente na referência a “[…] os meus passos” (Est.1; verso 1). O espaço encontra-se associado à lembrança fugaz, embora marcante da mulher amada, encontrando ligação de intertextualidade com o soneto camoniano “Quando o sol encoberto vai mostrando” (Cohen, 2008, p.2) – em ambos se evoca, de modo nostálgico, o momento passageiro e acompanhado na praia.
Em Camilo Pessanha, o soneto é contido – sem referência ao objeto do seu amor – , sendo feita alusão à memória de um encontro breve “A fugitiva hora, reevoquei-a” (Estrofe 1; v.2). O objeto do amor é aqui representado como uma imagem pouco nítida e fugidia, convertida em lembrança de um passado arrebatado pelo vento “Onde fostes, sem tino, ao vento vário.” (Est.3; verso 1).
As marcas deixadas ao longo do percurso solitário através do areal são pegadas que a maré se encarregará de eliminar “Toda essa extensa pista – para quê?/ Se há-de vir apagar-vos a maré,” (Est. 3; versos 1 e 2) relegando, quase ao esquecimento, uma memória breve, mas intensa.
A fusão do estado de espírito nostálgico e solitário com o cenário envolvente, torna inútil o sentimento de saudade: a extensa pista, referida no último terceto, desaparece, dando lugar a um “[…] novo rasto que começa…”. (Est. 4; verso 3)
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Bibliografia Sumária
Osório, João de Castro (org.) (1987) . Clepsidra. Lisboa: Ulisseia
Clariano, Tiago Filipe Soares Valente (2017). A Clepsydra libertada. Tese de Mestrado. Lisboa: FLUL
Consultada a 13/6/2020 em https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/32147/1/ulfl242230_tm.pdf
Coelho, Jacinto do Prado (1982). “Simbolismo”; “Camilo Pessanha”. In Dicionário de Literatura. Porto: Figueirinhas
Cohen, Rip (2008) (trad. de Abel Barros Baptista) . “Pegadas na areia oitocentista”. In Colóquio Letras (s/n). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
Sumário
- Recusa de um lirismo de confissão direta.
- Fusão da paisagem com os afetos.
- Expressão de tédio e de desilusão.
- Melancolia da paisagem crepuscular ou outonal.
Temas
Ficha Técnica
- Título: "Clepsidra", de Camilo Pessanha
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Teresa Vieira da Cunha/ Associação de Professores de Português (APP)
- Ano: 2021