“Viagem através duma nebulosa”, de António Ramos Rosa
A poesia de António Ramos Rosa é reveladora de preocupações estéticas centradas na palavra, não cessa de questionar os problemas políticos e sociais do seu tempo. Evidenciando o olhar cívico de quem, empenhado na literariedade do texto, os versos encontram um ponto de equilíbrio entre “poesia social” e “poesia pura”, o que permite conciliar fatores aparentemente contrários.
Resumo
Coletânea publicada em 1960, Viagem através de uma nebulosa conduz à reflexão sobre o destino da Humanidade, oscilando entre o desencanto de “Funcionário Cansado” a viver “[…] todas as noites do mundo uma noite só comprida num quarto só” e a incessante procura de uma mudança, depositada na vinda de tempos de maior equidade, como se lê em “A ciência das canções” – “o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos/sustentando esta aurora ainda por nascer.”.
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A escrita contemporânea de Ramos Rosa apresenta, em diversos registos , o carácter essencial da esperança, da amizade e da expectativa depositadas num futuro que se deseja próximo, da exclusiva responsabilidade de um coletivo a quem cabe a construção de uma sociedade democrática.
Temática e texto
“Não posso adiar o amor para outro século” destaca o sentimento presente no título como sendo algo que não pode mais aguardar pela sucessão dos dias.
Trata-se de um anseio de liberdade, inseparável do conceito de Amor, por oposição aos tempos de opressão vividos durante a ditadura nacional, metaforicamente apresentada em “ainda que a noite pese séculos sobre as costas”. Pesa, de igual modo, a imposição do silêncio decorrente do regime político vivido “ainda que o grito sufoque na garganta”.
Construída em torno da antítese amor/ódio, a composição destaca de forma explícita esta dualidade: “[…] arma de dois gumes”.
O facto de ser enaltecida uma vontade urgente, impossível de reprimir, é reforçado pela utilização da anáfora “Não posso adiar”, a acentuar a determinação .
A inadiabilidade é o único modo encontrado para pôr fim a uma situação negativa que se adensa, patente na gradação do verso: “ainda que o ódio estale e crepite e arda”.
Os tempos marcados pelo silenciamento da censura são destacados metaforicamente através de uma sensação visual que denota a quase ausência de cor, encontrada na expressão “montanhas cinzentas”, repetida em versos sequentes.
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Não apresentando uma estrutura estrófica regular, o poema termina, em tom de conclusão que parece perdurar, à semelhança do efeito do eco, com o monóstico. “Não posso adiar o coração”, único verso isolado do conjunto de estrofes, a funcionar como chamada de atenção e a conferir um lugar único ao órgão que é a metáfora da própria vida.
Em “Para um amigo tenho sempre um relógio”, o tempo contável – as horas, os minutos –, surge por oposição ao conceito de sincera amizade, um sentir prioritário, livre das obrigações e de horários “[…] esse relógio não marca o tempo inútil”.
O sentimento que atravessa o breve poema é, portanto, o de uma total disponibilidade, a de ter “[…] sempre um relógio/ esquecido em qualquer fundo de algibeira”. O esquecimento do utensílio que, implacável, vai assinalando a passagem das horas, reforça a ideia de um afeto autêntico, a desafiar o próprio tempo.
De acordo com o sujeito poético, a amizade é pautada por sensações associadas ao tato, ao calor e ao colorido dos elementos apresentados, o que leva a destacar a origem da palavra “cor”, presente em muitos textos poéticos primitivos, na sua aceção etimológica de coração, espaço privilegiado para preservar e alimentar, de modo sensível, os laços de apreço que unem os seres humanos.
A cordialidade que sobressai em notações quentes e cromáticas encontra-se expressa através de diversas sensações: “arco-íris”; “copo de vinho”; “sangue e sol”.
Poder-se-á concluir, pelo exposto, que o sentimento em destaque é demasiado precioso para ser desperdiçado e que constitui prioridade no relacionamento com aqueles que são objeto de verdadeira estima.
Bibliografia Sumária
Rosa, António Ramos (1960). Viagem através duma nebulosa. Lisboa: Ática.
Mendes, Ana Paula Coutinho (org.) (2005). Poesia do século XX: com António Ramos Rosa ao fundo. Porto: FLUP.
Queirós, Luís Miguel (2013). “António Ramos Rosa (1924-2013), uma vida dedicada à poesia”. In Jornal Público de 23/9/2013.
Sumário
- A linguagem metafórica na literatura durante o Estado Novo.
- O conceito de amizade na poesia contemporânea.
- A Humanidade como força de mudança.
- A esperança como motivação para enfrentar o quotidiano.
Temas
Ficha Técnica
- Título: "Viagem através de uma nebulosa", de António Ramos Rosa
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Teresa Vieira da Cunha/ Associação de Professores de Português (APP)
- Ano: 2021