Fernando Pessoa e a Poesia dos Heterónimos
Fernando Pessoa afirma que por qualquer motivo temperamental construiu dentro dele várias personagens distintas entre si. A estas personagens atribuiu vários poemas, diferentes dos que ele próprio, o ortónimo, escreveria. Refere-se a Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos e avisa que não há que buscar neles ideias ou sentimentos seus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceita e sentimentos que nunca teve.
Resumo
• A questão da heteronímia
Fernando Pessoa assume-se como um poeta que é vários poetas, numa escala poética de despersonalização, ou seja, de imaginação criativa.
A consciência de que existem outros “eus” dentro de si, que sentem e pensam de maneira diferente, está na origem do processo criativo de Fernando Pessoa, que origina uma criação poética diferente da do ortónimo. Na carta que escreve ao amigo Adolfo Casais Monteiro, o poeta explica a génese dos heterónimos, descrevendo o aspeto físico, a personalidade e as singularidades da escrita de cada um e designa essas criações fictícias como “drama em gente”.
Este admirável poder de se desdobrar resulta numa diversidade de manifestações linguísticas e de estilos, os estilos dos heterónimos, que se distanciam da poesia ortónima.
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Temática e texto
• O fingimento artístico
Alberto Caeiro é o poeta bucólico. Valoriza a natureza e a inocência da vida campestre, contudo, a espontaneidade da sua poesia é apenas aparente.
Ricardo Reis é o poeta “clássico”. Assume-se como um pagão e, por isso, a sua poesia está repleta de referências mitológicas que não são meros adornos estilísticos, já que Reis assume a crença nos deuses e na civilização da Antiguidade greco-latina.
Álvaro de Campos é o poeta da modernidade. O eu poético debate-se frequentemente com a dualidade inconciliável do sentir e do pensar e revela-se consciente do fingimento poético e do abismo que afasta o eu dos outros. É um sujeito angustiado, abatido e descontente.
• Reflexão existencial
Em Alberto Caeiro assistimos ao primado das sensações. A deambulação pela Natureza permite-lhe captar a essência da realidade pela primazia das sensações, recusando a intervenção do pensamento. Numa ausência total de pensamento e de filosofia, o sujeito finge ser o mais sensacionista dos poetas, mas sob a capa da espontaneidade os seus textos refletem uma profunda reflexão e intelectualização.
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Ricardo Reis assume a consciência e a encenação da mortalidade. O epicurismo assenta na busca da felicidade relativa, a moderação nos prazeres e a ataraxia – a tranquilidade capaz de evitar qualquer perturbação. Por isso, a felicidade do ser humano resulta de uma existência simples. Cada dia é único e deve ser vivido na sua singularidade, seguindo a máxima latina carpe diem (aproveita o momento) e a aurea mediocritas (a felicidade possível no sossego do campo). O estoicismo influencia também a estética de Reis, na aceitação das leis do destino -“(…) a vida/ passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.”), na indiferença face às paixões e à dor e na sua autodisciplina.
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Na poesia de Álvaro de Campos, conhecemos um sujeito entediado com a vida, num sofrimento causado pela consciência do que o rodeia e imerso numa nostalgia da infância que lhe devolve as memórias de um tempo de felicidade que não volta. É a sua emotividade e a sua subjetividade que o impedem de ver de forma simples, sem intelectualizar o que perceciona pelos sentidos.
• O imaginário épico
A leitura dos poemas de Álvaro de Campos remete-nos para a exaltação do Moderno e o arrebatamento do canto. O Futurismo, em Campos, manifesta-se na defesa de uma estética baseada na ideia de força. O poeta faz a apologia da beleza desconhecida da máquina e da civilização moderna, exalta os progressos da ciência e adota um estilo excessivo motivado pelas sensações novas e vibrantes de um mundo novo.
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Bibliografia Sumária
Pessoa, Fernando (1986). Obra poética. Lisboa: Círculo de Leitores.
Bréchon, Robert (1996). Estranho estrangeiro: uma biografia de Fernando Pessoa. Lisboa: Quetzal Editores.
Coelho, Jacinto do Prado (2007). Diversidade e unidade em Fernando Pessoa. Lisboa: Editorial Verbo.
Lourenço, António Apolinário (2009). Fernando Pessoa (coord. de Carlos Reis). Lisboa: Edições 70.
Lourenço, Eduardo (1993). Fernando, Rei da nossa Baviera. Lisboa: IN-CM.
Mourão-Ferreira, David (1988). Nos passos de Pessoa. Lisboa: Editorial Presença.
Sumário
- A criação poética assenta no fingimento artístico.
- O processo de criação heterónima.
- As individualidades na poesia de Pessoa.
- Os motivos centrais da estética pessoana.
Temas
Ficha Técnica
- Título: Obra Poética - Poesia dos heterónimos, de Fernando Pessoa
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Ilídia Ferreira/ Associação de Professores de Português (APP)
- Ano: 2021