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“Obra Poética”, de Manuel da Fonseca

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A lírica de Manuel da Fonseca assume um cariz social e de testemunho. Os seus poemas são formas de mostrar o mundo real através de um verso claro e revelador.

Resumo

A poesia de Manuel da Fonseca assume um cariz social e interventivo, à semelhança da sua prosa.

A lírica do autor desnuda, de modo natural e espontâneo, as vivências do povo, resultado da opressão, da miséria, da riqueza e da tristeza do Ser.

Algumas obras de poesia: Rosa dos ventos; Planície; Poemas dispersos; Poemas completos; Obra poética.

“O vagabundo do mar”

O sujeito poético, vagabundo, reflexivo, surge-nos aparentemente como sofredor com uma vida sem planos (“é tudo conforme o vento”), miserável, difícil e desconfortável (“e não há porto de abrigo?”). No entanto é detentor de um bem precioso, a liberdade: para viver basta-lhe “cara alegre e braço forte”, ou seja, ânimo, aceitação e resiliência.

Este “vagabundo do mar” tem uma vida incerta, simples e despojada de bens essenciais. Vive como a dinâmica do mar, como se fosse uma onda ou uma maré, oscila entre a possível tranquilidade e a naturalidade da existência e a inquietude perante a ausência de proteção e segurança (porto de abrigo).

O sujeito lírico, vagabundo, errante e aventureiro, mostra uma expressão espontânea, natural, onde o trivial da existência ganha uma forma literária inquestionável.

“Maria Campaniça”

O sujeito poético observa, admirando, Maria Campaniça, uma ceifeira de “olhos lindos”, inspiradores, mas de “rosto macerado”. A beleza física de Maria Campaniça (olhos) contrasta com o seu cansaço físico e psicológico (gestos de mágoa e abandono).

É notório que, em contexto laboral, Maria Campaniça se faz acompanhar de dois objetos femininos e sinónimo de proteção, o lenço e o xaile. Estes dois objetos são simbolicamente uma tentativa de defesa perante a adversidade inerente à intensidade do trabalho “desde manhã ao sol-posto”, refletindo uma inegável condição feminina de mulher do campo que “anda na ceifa e na monda”. Esta atividade apesar de difícil reveste-se de positividade, pois ceifam-se os campos semeados, férteis e que dão fruto, mondam-se (colhem-se) as ervas daninhas para que as colheitas sejam ainda melhores. Efetivamente, Maria Campaniça exerce uma profissão extremamente valiosa, produtiva ao que o sujeito poético é sensível.

O poema apresenta, num primeiro momento, uma descrição de Maria Campaniça e do seu trabalho e culmina com um pedido emotivo do sujeito poético. Pede-lhe que o olhe, pois esse olhar terá o poder, metafórico e hiperbólico, de lhe dar luz, alegria, felicidade, associando essa sensação ao “ver nascer do sol”.

Este poema reflete por um lado a dureza da vida no campo, sendo por isso um testemunho realista mas por outro uma manifestação romântica, repleta de elegância, onde a sensibilidade humana que se concretiza através da atração, admiração e até compaixão do homem que contempla a mulher amada, sofredora mas encantadora (cf o poder do olhar).

“Mataram a tuna”

Num tom coloquial, o sujeito poético, entusiasta e crítico, mostra como a amizade e a união entre as pessoas pode mudar realidades e contextos.

O poema evidencia a importância do cidadão ativo, participativo, atento e interventivo, que pode, e deve, acima de tudo lutar por um bem comum, ainda que enfrente alguma oposição.

Outro aspeto valorizado é a importância da vida e do momento, o carpe diem estoico-epicurista, perante a incerteza do futuro, pois “se a vida é curta e a morte infinita/despertemos e vamos/eia!”

Temática e texto

• O peso do social

Os poemas de Manuel da Fonseca mostram a valorização da vida e da liberdade e também da vida em liberdade face à opressão dos tempos e dos contextos sociais. (“Mataram a Tuna”).

Há a busca resiliente de uma liberdade feliz, apaziguadora, ainda que difícil de conseguir. Um contraste entre o que se é e o que se gostaria de ser.

Fica plasmado o peso do social sobre o indivíduo, pessoa que pensa, sente e não consegue evadir-se desse contexto atroz, como se verifica em “O vagabundo do mar” e em “Maria Campaniça”.

A sociedade estrutura a vida dos cidadãos, mas inibe sonhos e desejos, exigindo adequação e aceitação constantes. O remar contra a maré surge como uma forma de força individual necessária à construção do sujeito e do mundo social em constante mudança.

Imagem de “Romance do Terceiro Oficial de Finanças”, de Manuel da FonsecaVeja Também“Romance do Terceiro Oficial de Finanças”, de Manuel da Fonseca

Bibliografia Sumária

Fonseca, Manuel. (2011). Obra Poética de Manuel da Fonseca. Lisboa: Editorial Caminho.

Infante do Carmo, Carina. (2012). Manuel da Fonseca e a Escrita da Violência. In, Nova Síntese. N.º 6. Lisboa: Colibri, pp.103-118. In http://hdl.handle.net/10400.1/5899.

Gonçalves de Siqueira, Mariá. (2016). A representação da realidade e o trágico em Seara de Vento, de Manuel da Fonseca, e em Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Pernambuco. In https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/18399.

Ribeiro, Ana. (2019). “Histórias ‘de proveito e exemplo’ em representações da infância de Manuel da Fonseca”. In C. I. Carmo e V. Magalhães (coord.), Neo-realismo e infância. Lisboa: Colibri, pp.61-74. In http://hdl.handle.net/1822/63049.

Sumário

  • A sociedade pode oprimir, mas o indivíduo deve procurar a sua liberdade/felicidade.
  • A liberdade exige luta e determinação social e individual.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "Obra Poética", de Manuel da Fonseca
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Paula Cristina Ferreira/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021