“Rimas”, de Manuel Maria Barbosa du Bocage
Herdeiro da perfeição formal, por influência da Nova Arcádia, e de temperamento romântico, por índole, Bocage, essencialmente nos seus sonetos, vai-nos apresentar um Eu que elege o amor e a morte como temas primordiais da sua poesia. Estávamos, então, no século XVIII.
Resumo
Manuel Maria de Barbosa du Bocage, também conhecido pelo pseudónimo de Elmano Sadino, sente-se, por um lado, herdeiro de uma tradição clássica, marcada pela ordem e rigor, perpetuando a imitação, e por outro, vivencia o seu temperamento intempestivo, ansiando pela desejada liberdade romântica.
Na sua obra Rimas, publicada em três volumes (1794, 1799, 1804), e atualmente compilada em diferentes antologias poéticas, estão bem presentes os géneros clássicos (odes, epístolas, canções, elegias e sonetos) com abordagens temáticas ao gosto romântico.
De salientar que o primeiro volume, para além da poesia, apresenta textos em prosa, nomeadamente, fábulas, sendo cinco inéditas e sete traduzidas de La Fontaine. Através delas, Bocage apresenta uma preocupação moralista, com um fundo didático, no que diz respeito à natureza humana.
O segundo volume é dedicado à amizade, no qual o poeta pretende agradecer a todos aqueles que contribuíram para mitigar as suas angústias.
No último volume, Bocage apresenta apenas doze sonetos inéditos e recupera textos diversos, em certa medida, esquecidos, mostrando a sua versatilidade enquanto escritor.
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Temática e texto
O drama de Bocage foi ter vivido, quase sempre, em conflito. Conflito entre a razão e a crença católica, entre o espírito boémio e o ideal moralista, entre o formalismo arcádico e a inquietude romântica. Marcado pelo inconformismo e pela sua irreverência, é, acima de tudo, o poeta do amor. É também o poeta da morte. É, ainda, o poeta do amor que leva à morte.
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No soneto “Olha, Marília, as flautas dos pastores” é bem evidente, para além da forma, a presença de características neoclássicas (arcádicas), tanto pelo vocabulário latinizante utilizado “cadentes” e “ósculos” como pela paz e tranquilidade que o ambiente transmite (aurea mediocritas), tão ao gosto dos clássicos. No entanto, denotam-se certas manifestações românticas, associadas à ideia do amor que leva à perdição, bem evidente no valor hiperbólico dos versos finais “Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira, / Mais tristeza que a morte me causara”, em que o poeta prefere a morte à ausência da amada.
Se em alguns poemas, Bocage nos apresenta uma natureza tranquila e alegre como forma de suavizar as inquietudes da vida, outros há, onde a presença do locus horrendus, bem ao gosto romântico, assume um papel preponderante, enquanto espelho da alma do poeta. A paisagem agreste, mais do que um cenário medonho, é o reflexo das mágoas do eu, como é visível no poema “O céu, de opacas sombras abafado,” nos seguintes versos “Quer no horror igualar-me a Natureza; / Porém cansa-se em vão, que no meu peito / Há mais escuridade, há mais tristeza.
Ao falar dos seus infortúnios amorosos, do destino cruel ou do desejo da morte, o universo poético de Bocage vai refletir, simultaneamente, em temas autobiográficos, característicos da poesia romântica. Exemplo disso é o poema “Magro, de olhos azuis, carão moreno,” que nos apresenta uma caracterização física e psicológica do eu poético, acentuando o seu conflito existencial “Incapaz de assistir num só terreno, deixando transparecer a sua “indisciplina” amorosa “Devoto incensador de mil deidades” e enfatizando a sua impetuosidade “Mais propenso ao furor do que à ternura;”.
No soneto, marcadamente, autobiográfico “Já Bocage não sou!… À cova escura”, o eu poético lança um olhar retrospetivo sobre a sua existência. Num tom confessional, faz um balanço final sobre as suas opções de vida, mostrando um certo inconformismo perante os excessos praticados e evidenciando o seu arrependimento “Eu me arrependo; a língua quase fria”. Reconcilia-se com os valores morais que muitas vezes criticou “Eu aos céus ultrajei! O meu tormento” e, para além de uma autocrítica, apresenta também uma intenção moralizadora, perspetivando o futuro “Rasga meus versos, crê na eternidade!”. O poema, escrito nos últimos momentos de vida de Bocage, imbuído de uma carga emocional e de sentimentos tumultuosos, mas simultaneamente assente na perfeição formal, confirma que a sua passagem pela Nova Arcádia e o seu temperamento romântico o acompanharam até ao fim dos seus dias.
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Bibliografia Sumária
Bocage, Manuel (s/data). Rimas. Lisboa: Oficina Simão Thaddeo Ferreira.
Barahona, Margarida. (1981). Poesias de Bocage. Lisboa: Seara Nova Editorial Comunicação.
Borregana, António (1986). O Texto em Análise I. Guarda: Oficina de São Miguel.
Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira (volume IV). Editorial Enciclopédia Lda: Lisboa/Rio de Janeiro.
Ferreira-Mourão, David (1981). Hospital das Letras. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.
Sumário
- Poeta de transição: do racionalismo arcádico ao individualismo romântico.
- A poesia confessional do amor e da morte.
- O drama existencial: da transgressão ao arrependimento.
Temas
Ficha Técnica
- Título: "Rimas", de Manuel Maria Barbosa du Bocage
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Carla Silva/ Associação de Professores de Português (APP)
- Produção: APP/ Associação de Profissão de Português
- Ano: 2021