“Aldeia Nova”, Manuel da Fonseca
Antologia que nos mostra que a forma de estar na vida é, muitas vezes, reflexo da nossa maneira de ser. Mestre Finezas, um homem talentoso, deixa-se vencer pela passividade e inércia. Não luta pela mudança e nem pela sua autossatisfação.
Resumo
Contos
A antologia, de 1942, apresenta-se como um espaço de liberdade, crítico, e também como um retrato da realidade portuguesa, alentejana.
Os contos que a integram conduzem inevitavelmente o leitor à dicotomia regionalismo / cosmopolitismo e a um darwinismo social implacável.
“Mestre Finezas”
Será o talento o suficiente para vencer na vida? O que é necessário a uma vida de sucesso?
Mestre Finezas é um homem com três ofícios (barbeiro, ator e violinista) que, apesar de talentoso, não se mostra empreendedor e “deixa-se morrer” na vila e na vida.
O Mestre tem por amigo e confidente um antigo cliente, Carlinhos, com quem partilha reflexões sobre como ser bem-sucedido ou fracassado. Ambos experimentam uma existência amorfa, inerte e sem qualquer incentivo para empreender, criar… VIVER.
Mestre Finezas alimenta-se das suas recordações, excelentes performances no teatro da vila, dos seus tempos áureos e artísticos. Carlinhos projeta-se num sonho que não é capaz de concretizar, vive de modo inerte, passivo.
O nome Mestre Finezas é revelador do enorme potencial da personagem: tem/teve grande mérito na comunidade, domina formas de arte sublimes, elegantes e delicadas, finas, como a música (violino) e o teatro.
O texto surge-nos como uma viagem no tempo através das recordações de Carlinhos, do passado para o presente. Primeiro Carlinhos entra na barbearia e recorda, na primeira pessoa, os tempos de infância em que tinha medo da figura esguia e curvada do Mestre Finezas sobre ele. Num momento posterior volta ao presente, pois passaram anos e a relação entre eles agora é de amizade, piedade e respeito.
Personagens
Mestre Finezas; Carlinhos; Vila
Temática e Texto
. Talento vs. Empreendedorismo
O conto expõe por um lado a realidade social (e individual) portuguesa através de personagens fortes e sofredoras no seu ambiente rural e precário, em busca de salvação da civilização de que é exemplo a personagem Carlos que “tenta a sua sorte” na cidade ao fazer os seus estudos e volta à terra natal desiludido sem ânimo, embora sonhe em partir brevemente.
Na escrita deste conto, Manuel da Fonseca mostra e defende claramente que todo o cidadão possui habilidades e talentos que, quando otimizados, conduzem ao sucesso e a uma vida mais culta e sensível, mas também fica clara a necessidade de se ser resiliente, esforçado, empenhado em lutar pela vida.
Por outro lado, a decadência do Mestre Finezas, enquanto ator e barbeiro, revela que o peso da sociedade sobre o sujeito e a (in)capacidade que este tem de lhe fazer frente, pode ser nefasta, culminando com a falência do negócio e a tristeza da personagem. Note-se que Mestre Ilídio Finezas vive de modo paupero, quase sem clientes, vive num casebre com a esposa entrevada, já não representa no teatro da vila, o único alento é o seu violino que ainda não vendeu.
Mestre Finezas é, indubitavelmente, um artista em várias áreas (teatro, música e barbeiro/cabeleireiro) com momentos áureos, aclamado, mas que decai com o tempo e é votado ao abandono pela vila (personagem coletiva). Carlinhos, também ele de vida falhada na cidade, pois não completou os estudos, é o cliente e confidente do mestre, faz-lhe companhia e sente “ondas de ternura”.
Na realidade, segundo o Mestre Finezas, a Vila vive apenas para “o negócio, a lavoura” e perdeu interesse pela arte pelo belo, escudando-se na necessidade de trabalhar.
Carlinhos (o narrador) e Mestre Finezas têm uma atitude diferente perante a vida, o jovem rapaz ainda sonha o futuro, ainda projeta, embora viva repleto de “marasmo e ociosidade”, e Ilídio Finezas já são sonha “recorda só”.
. Regionalismo vs. Cosmopolitismo
Os espaços concentrados, fechados e fortes revelam-se aos olhos de alguns cidadãos inibidores de vontades, ideias e talentos e contrastam com os centros cosmopolitas que são considerados ambientes de projeção, de oportunidade e de progresso. Note-se por exemplo a barbearia do Mestre Finezas que não se moderniza, não se atualiza e naturalmente perde clientes, enquanto outras barbearias brilham de novidade. Mestre Finezas, enquanto ator/violinista, também se acomodou, resistiu à saída “da sua terra” para dar espaço à sua arte e esta atitude acabou por deixar que o tempo desvanecesse o(s) seu(s) talento(s), passando necessidades.
Bibliografia Sumária
Fonseca, Manuel.(2011) . Aldeia Nova. Lisboa: Editorial Caminho.
Infante do Carmo, Carina. (2012). “Manuel da Fonseca e a escrita da violência”. In Nova Síntese, n.º 6. Lisboa: Colibri, pp.103-118. In http://hdl.handle.net/10400.1/5899.
Ribeiro, Ana. (2019). “Histórias ‘de proveito e exemplo’ em representações da infância de Manuel da Fonseca”. In C. I. Carmo e V. Magalhães (coord.), Neo-realismo e infância. Lisboa: Colibri. pp. 61-74. In http://hdl.handle.net/1822/63049.
Sumário
- O tempo é composto de mudança: Mestre Finezas era talentoso, respeitável e reconhecido pela Vila (comunidade) e com o tempo a ser uma pessoa passou a triste e desiludida com vida. Esta sensação de glória perdida deve-se ao desinteresse da vila pela sua arte e também à passividade do barbeiro/ator/violinista.
- As habilidades e talentos devem ser explorados e valorizados pelo próprio, e de modo resiliente, pois conduzem-nos à satisfação pessoal e ao sucesso na vida.
- Carlinhos, enquanto jovem com insucesso nos estudos, desiste momentaneamente de lutar, mas continua a sonhar com um futuro.
Temas
Ficha Técnica
- Título: Aldeia Nova, Manuel da Fonseca
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Paula Cristina Ferreira/ Associação de Professores de Português (APP)
- Produção: APP/ Associação de Professores de Português
- Ano: 2021