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“Manifesto Anti-Dantas e por Extenso”, de Almada Negreiros

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O "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso" consiste numa contestação irreverente a escritores e atores que, no início do século XX , eram aclamados pelo público. Como expressão de rejeição a fórmulas literárias e artísticas repetitivas, o texto declamatório de Almada Negreiros foi construído na sequência quase imediata da estreia de Soror Mariana, da autoria do dramaturgo Júlio Dantas, expondo a ridículo, através de um humor impiedoso, as fórmulas literárias postas em causa pela geração de Orpheu no prenúncio do Futurismo em Portugal.

Resumo

Após a primeira representação da peça teatral criticada, a 22 de outubro de 1915, no Teatro Ginásio de Lisboa, o escritor futurista redige o manifesto no qual declara total repúdio ao espetáculo. O texto resulta numa invetiva feroz a Júlio Dantas, cuja visibilidade era notória, no círculo lisboeta do público teatral no início do passado século. Tomando-o como principal visado, a intenção subjacente ao Manifesto Anti-Dantas e por Extenso é a de criticar a generalidade das produções nacionais fundadas num conjunto de lugares-comuns.

A Europa do início de século já vinha a assistir a “uma onda de Manifestos, escritos públicos, em que todos os seus autores se revelavam contra o imobilismo da arte conformista, institucionalizada, isenta de originalidade, que espelhava a forma de expressão da sociedade burguesa.” (Coelho, 1993).

Apesar dos aplausos da primeira representação de Soror Mariana, também se verificou, entre diversos elementos da assistência, uma certa rejeição ao espetáculo.

Como reação à estreia, Almada Negreiros redigiu o seu  texto demolidor acerca da peça e leu-o a alguns amigos. Cerca de oito meses mais tarde, teria lugar a publicação dessa crítica contundente.

A primeira impressão foi feita em papel pardo (de inferior qualidade, então utilizado em embrulhos comuns). Na edição encontram-se imagens de uma mão com o indicador a apontar, ilustrando a onomatopeia “PIM!”, sempre que a mesma é utilizada para simular o som (atenuado) de um disparo com arma de fogo.

Com a extensão de oito páginas não numeradas, a produção inicial esgotou rapidamente. De acordo com José-Augusto França, terá sido o próprio Júlio Dantas a adquirir a maioria dos exemplares, na tentativa de se resguardar do ridículo em que incorria (França, 1967).

No texto  humorístico de tom pontualmente acusatório, é reclamado um espaço que se demarca da arte consensualmente protegida, o que se deteta na irreverência da crítica. Tal atitude abre caminho a novos valores estéticos que caracterizam o Futurismo.

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O primeiro número da revista Orpheu , anterior à estreia da peça contestada, reuniu os nomes de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor. A publicação assinada por este conjunto de escritores e artistas plásticos havia sido criticada por Dantas num artigo da Ilustração Portuguesa, intitulado “Poetas Paranoicos”, cerca de seis meses antes da estreia de Soror Mariana.

Temática e texto

Trata-se de um texto longo, destinado a ser lido e teatralizado. Ao incluir no título do manifesto a expressão “por extenso”, o autor alarga o âmbito da crítica, pretendendo abarcar um conjunto de escritores da I República.

Entre os visados encontram-se incluídos os atores, parte do mesmo círculo cultural. A estagnação face à evolução artística verificada na Europa, manifestava-se através de fórmulas isentas de originalidade, o que é extensivo à crítica presente no texto do poeta futurista, no qual se pode ler: “O Dantas fez uma Soror Mariana que tanto podia ser como a Soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre de Avis […]”.

Assinando a obra na qualidade de “Poeta d’Orpheu, Futurista e Tudo” Almada Negreiros utiliza, na indicação autoral, maiúsculas destacadas a negrito, em letra cursiva e de maior dimensão. A opção é inspirada na técnica do cartaz publicitário.

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Através do efeito de surpresa, a acentuar uma imagem de excentricidade, o autor denuncia a repetição exaustiva de fórmulas ao agrado do público. A receita era aplicada, em profusão, através do recurso às mesmas temáticas e personagens. Como afirma Mc Nab “elaboravam as obras de acordo com o desejo dos consumidores.” (Mc Nab, 1977). A arte como consumo é satirizada ao ser equiparada a produtos de uso comum, cuja “marca” coincide com o nome do autor de peças teatrais: “[…] sabonetes em conta Júlio Dantas e pastas Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas,”.

O  manifesto desconstrói impiedosamente o texto teatral tanto na sua qualidade estética e literária, quanto na encenação e representação. Através de um corrosivo resumo do espetáculo, as observações deste manifesto preparam os destinatários para o desenvolvimento da crítica: “Vocês não sabem que é a Soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar”. Segue-se uma enunciação humorística bem conseguida através da  imprevisibilidade das observações minuciosas sobre o desenrolar do espetáculo no palco.

Destaca-se a pretensão de ridicularizar: “O Dantas usa ceroulas de malha!” . A aparente violência verbal presente na anáfora iniciada por: “Morra o Dantas, morra! […]” é atenuada pela onomatopeia “PIM!”, reforçando o teor declamatório do manifesto e, ao mesmo tempo, salientando o cariz insignificante do visado na crítica.

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Bibliografia Sumária

Negreiros, José de Almada (2006). Manifestos e conferências de José de Almada Negreiros. Lisboa: Assírio & Alvim.

Coelho, Luísa (1993). “Uma constante e solitária travessia das conveniências”. In Obras Completas de Almada Negreiros. Lisboa: IN-CM.

França, José-Augusto (1967). “No cinquentenário do Futurismo em Portugal”. In Colóquio Letras, ensaio n.º 35 (pp.4-10). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

McNab, Gregory (1977). “Sobre as duas intervenções de Almada Negreiros”. In Colóquio Letras, ensaio n.º 35 (pp. 32-40). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Silva, Celina (1994). Almada Negreiros. A busca de uma poética da ingenuidade. Porto: Fundação Eng.º António de Almeida.

Sumário

  • O Manifesto Anti-Dantas e as suas marcas de revolucionárias plenas de excentricidade.
  • A denúncia das fórmulas repetitivas e dos lugares-comuns presentes nos textos dramáticos e na escrita literária em geral.
  • A teatralização do género “manifesto”, de teor declamatório e corrosivo, com o intuito de despertar consciências no âmbito do panorama cultural vigente.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso", de Almada Negreiros
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Teresa Vieira da Cunha/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021