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“Metamorfoses”, de Jorge de Sena

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"Metamorfoses" (1963) é uma obra de Jorge de Sena marcada pelo diálogo intertextual com outras formas de arte. No poema “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” o poeta dialoga com o pintor espanhol Goya, refletindo sobre os direitos humanos; no poema “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, reconhece a grandeza de Camões.

Resumo

Metamorfoses é um dos livros de poemas de Jorge de Sena (o livro foi publicado em 1963 e posteriormente integrado em Poesia II, em 1978). Os poemas que o constituem nascem do diálogo intertextual entre a poesia e outras formas de arte, desde a Grécia antiga até ao século XIX. Criam-se, assim, ligações com a escultura (“Gazela da Ibéria”, “Deméter”, “Cabecinha romana de Milreu”…), a arquitetura (Mesquita de Córdova, Mosteiro de Alcobaça), a literatura (Camões), a pintura (Rembrand, Fragonard, Turner, Van Gogh, Fernando Azevedo, Goya…), fotografia (Brunei).

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Nesta obra, a arte é fonte inspiradora e ponto de partida para uma poesia comprometida, em que transparece o amor à vida e à Humanidade e a luta pela liberdade, pela justiça e pela dignidade humana.

Temática e texto

O poema “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (integrado em Metamorfoses, e, posteriormente, em Poesia II) tem como ponto de partida o episódio histórico retratado no quadro “O três de maio de 1808 em Madrid” (também conhecido por “Os fuzilamentos de três de maio”), da autoria do pintor espanhol Francisco de Goya. Trata-se de um poema-carta em que o sujeito poético se coloca no papel de um pai que se dirige aos seus filhos, dando-lhes uma lição de vida, a sua herança ideológica. Tal pai reflete sobre a realidade e sobre as crueldades cometidas pela humanidade (“tantos séculos / de opressão e crueldade”), partindo do “episódio breve” retratado no quadro de Goya (o massacre de 1808, em Madrid), mas não se cingindo a ele e denunciando outras atrocidades, como a Inquisição (“Para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue”) ou as Guerras Mundiais (“Foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, /E os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, / Ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória”). Apesar de evidenciar uma atitude de desencanto face ao mundo, o pai não deixa de enaltecer aqueles que lutaram pelos princípios e ideais que também defende, nem de manifestar a sua esperança de que os seus filhos venham a viver num mundo harmonioso (“simples e natural”), pautado pelo respeito mútuo e pela concretização das suas expetativas pessoais. Assumindo o papel de moldador de consciências perante um futuro incerto, depois de ter denunciado episódios da História sangrentos, o pai responsabiliza os filhos pelo futuro, incitando-os a lutar pela liberdade, pela justiça e pela preservação dos direitos humanos.

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O pendor epistolar do poema é marcado quer pela presença da primeira e segunda pessoas (“Não sei, meus filhos, que mundos era o vosso”) quer por um estilo familiar, visível no vocabulário e nas construções frásicas (“E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto / o que vos interesse para viver.”). Tal como o título permite inferir, o poema “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” tem um destinatário preciso: os filhos do poeta Jorge de Sena. No entanto a meditação e o testemunho do poeta, baseada na memória coletiva, adquirem um efeito de universalização, implicando os leitores vindouros como destinatários: “E, por isso, o mesmo mundo que criemos / nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa / que não é nossa, que nos é cedida / para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias […].”

No poema “Camões dirige-se aos seus contemporâneos” (também incluído inicialmente em Metamorfoses e, depois, em Poesia II), o sujeito poético coloca-se na pele do próprio Camões, interpelando os seus contemporâneos. Depois de, no título, se apresentar a chave de leitura do poema (recorrendo-se à 3.ª pessoa do singular, anulando a presença do enunciador), a voz que se eleva no poema passa a ser a do próprio Camões, que, na primeira pessoa do singular, se dirige ao seu interlocutor (“os seus contemporâneos”), que trata por “vós”: “Podereis roubar-me tudo”. O tom é de revolta: recorrendo enumerações expressivas, o poeta acusa os seus contemporâneos de lhe roubarem “tudo” (“as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos, / os símbolos, e a primazia / nas dores sofridas de uma língua nova”), de o desprezarem e de ignorarem o seu valor intelectual (“não me citar, / suprimir-me, ignorar-me, aclamar até / outros ladrões mais felizes”). De seguida, adverte-os que, futuramente, o seu valor será reconhecido, e que eles serão remetidos ao esquecimento. A figura do poeta é, ao longo deste poema, valorizada como símbolo quer da identidade nacional, quer da independência moral.

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Pode estabelecer-se, neste poema, uma relação entre Camões e Jorge de Sena: tal como acontece com o seu antecessor, também Sena se sente ignorado e desvalorizado pelos seus contemporâneos; o seu valor literário merece ser reconhecido e ficar para a memória.

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Bibliografia Sumária

Sena, Jorge de (2013). Poesia II. Lisboa: Moraes Editores.

Bernardino, Lígia (2017). Arte e rememoração em Jorge de Sena. Forma de Vida, 10.

Lourenço, Jorge (2019). O essencial sobre Jorge de Sena. Lisboa: INCM.

Saraiva, Marco (2014). A linguagem das metamorfoses em Jorge de Sena. Vozes dos Vales, 6 (III).

Sumário

  • Metamorfoses: diálogo intertextual entre a poesia e outras formas de arte (arquitetura, escultura, pintura, fotografia, literatura).
  • “Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”: a poesia como forma de luta pelos direitos humanos.
  • “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”: o reconhecimento do valor de Camões.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "Metamorfoses", de Jorge de Sena
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Noémia Jorge/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021