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Processos regulares de formação de palavras
Processos regulares de formação de palavras
Ensino:

Sabias que a língua portuguesa deriva do latim? Como tal, a maioria das palavras que a constituem é de origem latina. Muitas dessas palavras são por sua vez derivadas do grego, que influenciou a língua latina. A língua portuguesa – tal como qualquer outra língua – está constantemente a incorporar novos termos, ora provindos de idiomas estrangeiros, ora criados com base nos vocábulos já existentes.

Essas palavras novas surgem através de diferentes processos de formação. Consideram-se processos regulares aqueles que implicam uma modificação que afeta a estrutura formal das palavras, sendo estes os mais previsíveis e produtivos. São eles a afixação, a composição, a derivação não-afixal e a conversão. Os processos irregulares, por sua vez, são menos previsíveis, mas contribuem igualmente para o aumento do léxico: o empréstimo, a truncação, a amálgama, a acronímia, a siglação, a extensão semântica, a onomatopeia e a reduplicação.

Vamos conhecer quais os processos regulares de formação de palavras em português.

PROCESSOS REGULARES DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS

Afixação

Este processo consiste na junção de um ou mais afixos a uma palavra já existente na língua. Por exemplo, indiferente, embelezar, apagador, desfazer.
A afixação é um fenómeno tão produtivo na nossa língua, que por vezes se torna difícil saber se uma palavra formada por afixação já existe de facto em português ou acaba de ser criada por alguém.

Os processos de afixação são os seguintes:

a) Prefixação: é a associação de um prefixo a uma forma de base. Em quase todos os casos, implica apenas a alteração semântica da forma de base. Exemplos: coautor, dispor, infraestrutura, subdiretor.

b) Sufixação: é a junção de um sufixo a uma forma de base. Este processo determina a categoria sintática da forma derivada. O resultado pode ser uma palavra da mesma classe gramatical, ou de classe diferente. Exemplos: sapateiro, contável, repatriamento, sediar.

c) Parassíntese: é a agregação simultânea de um prefixo e de um sufixo a uma forma de base, para formar verbos a partir de nomes e adjetivos. Neste caso, prefixo e sufixo são interdependentes, ou seja, nenhum deles pode ocorrer com aquela base sem o outro. Por exemplo: encaracolar (não existe o nome encaracol nem o verbo caracolar), envelhecer (não existe o adjetivo envelho nem o verbo velhecer), aterrar (não existe o nome aterra nem o verbo terrar), aproximar (não existe o adjetivo apróximo nem o verbo proximar).

Derivação não-afixal

Este processo implica sempre a transformação de uma forma verbal num nome, por meio da junção das terminações típicas dos nomes (-a, -e, -o) aos radicais verbais. Por exemplo, entrega (de entregar), perda (de perder), toque (de tocar) encaixe (de encaixar), uso (de usar), encontro (de encontrar).

Chama-se derivação não-afixal a este processo porque não se adiciona propriamente um afixo à forma de base, sendo a palavra criada mais curta do que aquela que lhe deu origem (motivo pelo qual, tradicionalmente, se chamava derivação regressiva a este processo).

Conversão

Na conversão, cria-se uma palavra a partir de outra já existente. Ambas têm a mesma forma, mas a palavra nova é de classe gramatical diferente. Por exemplo, o adjetivo elétrico deu origem ao nome elétrico (porque em vez de «carro elétrico» se passou a chamar ao meio de transporte apenas elétrico); altamente é advérbio e passou a usar-se também como adjetivo, com o significado de «muito bom, excelente»; burro e porco são nomes de animais, e permitiram formar os adjetivos correspondentes (significando, respetivamente, «estúpido» e «sujo»), jantar é um verbo que deu origem ao nome da refeição; dos adjetivos clara e celeste formaram-se os nomes próprios Clara e Celeste.

Composição

Neste processo, juntam-se dois ou mais vocábulos para formar um termo novo. A base tanto pode ser constituída por palavras, que já são usadas na língua (por exemplo: em + boa + hora = embora), como por radicais (por exemplo, agro-, bio-, -grama, -logia), muitos dos quais são provenientes do grego e do latim, e que funcionam como elementos de formação.

Assim, distinguem-se dois tipos de processos:

composição morfossintática: junção de duas ou mais palavras de uso corrente na língua, que começam por ser usadas em conjunto (mas enquanto unidades independentes) e gradualmente se vão aproximando, até que acabam por formar uma única unidade lexical. Trata-se, pois, de um processo que decorre ao longo de um período prolongado de tempo. Assim, podemos observar:

a) justaposição: trata-se da primeira fase da composição morfossintática, uma vez que, nestes compostos, as duas ou mais palavras envolvidas mantêm a sua identidade a nível gráfico e fónico. Algumas palavras justapostas estão unidas, mas é possível distinguir cada uma delas, pois nenhuma sofreu alterações na escrita ou no acento. Por exemplo, madrepérola, pontapé, talvez. Mas em muitos casos, as palavras justapostas apresentam hífenes a separar cada um dos seus elementos. Por exemplo saca-rolhas, guarda-chuva, trabalhador-estudante e preia-mar. No entanto, também há as que se mantêm separadas, como cor de laranja, sala de estar, nave espacial e pai natal.

b) aglutinação: trata-se de uma junção de unidades marcada pela alteração formal, ou seja, uma (ou mais) dessas palavras sofre um mudança a nível gráfico e/ou fónico: por exemplo a junção das duas vogais em aguardente (água + ardente), a alteração do som final da primeira palavra em corre + mão, que originou corrimão, ou a supressão da sílaba final do primeiro elemento em Monsanto (monte + santo).

A estrutura dos compostos morfossintáticos varia consoante a relação que se estabelece entre os elementos que os constituem:

a) estrutura de coordenação: quando os radicais são ambos importantes para a construção do sentido global do composto, não se podendo concluir que um deles é o elemento principal. Por exemplo, trabalhador-estudante, porco-espinho, Pai Natal. A flexão no plural afeta, por isso, ambos os radicais, a menos que se trate de uma locução (ex.: sem-abrigo, sempre-em-pé).

b) estrutura de subordinação: o radical da esquerda é o principal e o da direita age como seu modificador. Isto acontece com pombo-correio, peixe-espada, fim de semana. Nestas palavras, a flexão no plural só afeta o primeiro elemento.

c) estrutura de reanálise: o radical da esquerda é um verbo conjugado na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo e o da direita é um nome ou, mais raramente, um adjetivo. Por exemplo, apara-lápis, picapau, porta-chaves. Nestes compostos, a flexão em número só afeta o elemento da direita, a menos que este já seja um nome plural, em cujo caso o composto é invariável (Ex.: quebra-nozes, porta-chaves, abre-latas, etc.).

composição morfológica: junção de dois radicais, ou de um radical e de uma palavra, com a intenção imediata de criar uma palavra única. Não se trata, portanto, de uma aproximação gradual entre vocábulos (como acontece na composição morfossintática). Por exemplo, telefone deriva do radical grego tele (que significa «à distância») e do radical grego fone (que significa «voz»), já biodiversidade é a união entre o radical grego bíos, que significa «vida» e o nome diversidade. Outros exemplos são ecoponto, agroturismo, televisão, fotografia e ludoteca.

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Ficha Técnica

  • Área Pedagógica: Leitura e Escrita
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Sandra Duarte Tavares
  • Ano: 2022