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“Poesias Completas”, de Alexandre O´Neill

Imagem de “Poesias Completas”, de Alexandre O´Neill

Fundador do movimento surrealista em Lisboa, Alexandre O’Neill povoa a sua poesia com jogos de palavras, criando os seus próprios neologismos. Através da ironia e do humor, percorre temas como o amor, o medo e a solidão.

Resumo

A obra Poesias Completas  reúne um conjunto de textos desde 1951 a 1986 e encontra-se dividida em 12 partes, correspondendo cada uma delas a diferentes obras publicadas pelo autor, separadamente. A partir de 1947, assume a sua tendência surrealista e com Mário Cesariny e Mário Domingos experienciam diferentes conjugações ao nível da linguagem, nomeadamente, através da elaboração de “Cadáveres esquisitos” ou “Diálogos automáticos” que consistiam na desagregação do sentido lógico dos textos e, consequentemente, dando lugar à pluralidade de sentidos.

A poesia do escritor ficará marcada pelo seu vanguardismo, demonstrado através do caráter lúdico do seu jogo de palavras onde sobressai o lado surreal do real, por vezes, com influências da tradição literária e de escritores como Nicolau Tolentino. Em certas situações, recorre ao uso de onomatopeias e/ou de neologismos, criados pelo escritor, como forma de inovar e de expressar as suas ideias, linguisticamente cosmopolitas.

Usando a sátira e a ironia, os seus textos apresentam-nos um Portugal caricaturado, fazendo desaparecer a imagem de um país heróico, valorizando a dor quotidiana, as dificuldades diárias e recorrendo ao humor como forma de ultrapassar os problemas. Parte do princípio de que o lado humorístico pode ser a salvação para as misérias da vida, associando ao mesmo um tom sentimentalista ao abordar temas como o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a solidão.

Paralelamente à palavra escrita, é conhecido o seu gosto por outras áreas, tendo escrito, por exemplo, a letra do fado “Gaivota”, destinada à voz de Amália Rodrigues. À margem da poesia, O’Neill também deixou a sua marca na área publicitária, ficando famoso um dos seus slogans “Há mar e mar, há ir e voltar”.

Imagem de Alexandre O´Neill, o poeta que jogava com as palavrasVeja TambémAlexandre O´Neill, o poeta que jogava com as palavras

Temática e texto

• Poema “Amigo”

Este poema integra a segunda secção do livro Poesias Completas, intitulada “No Reino da Dinamarca”. A composição poética é constituída por seis estrofes (um dístico, uma sextilha, dois tercetos, um monóstico e uma quadra), nas quais o eu lírico tenta demonstrar o valor da amizade e o que a mesma implica, «“Amigo” é uma grande tarefa, / Um trabalho sem fim,». Faz um elogio à aceitação do outro tal como é, incentiva à crítica construtiva e apela à compreensão para com as atitudes e decisões do mesmo.

Ao longo do texto, pretende-se encontrar uma definição para a palavra “amigo” e as qualidades que o mesmo deverá ter. Para realçar estas características, o sujeito poético recorre à anáfora (repetição da expressão “amigo é” ao longo do poema e sempre no início dos versos), à metáfora, «”Amigo” é um sorriso / De boca em boca,» e à adjetivação expressiva. Para salientar os defeitos que um amigo não deverá ter, recorre-se à metáfora, «”Amigo” é o erro corrigido / Não o erro perseguido, explorado,» e à antítese (oposição entre ideias), « “Amigo” é o contrário de inimigo!». Ao longo do poema também não são esquecidos os “falsos amigos”, onde de forma irónica, se salienta o cinismo e se acentua a diferença relativamente aos amigos verdadeiros.

Em traços gerais, o poema apresenta a importância da presença de um amigo na vida de todos nós, quer no momento da partilha, quer nos ensinamentos que nos poderão tornar pessoas melhores, quer para evitar o isolamento e a solidão, «”Amigo” é a solidão derrotada!».

• Poema “Autorretrato”

Este poema integra a quarta secção do livro Poesias Completas, intitulada “Poemas com Endereço”. A composição poética é constituída por uma única estrofe que poderá ser dividida em três partes. Num primeiro momento, o sujeito poético faz referência ao seu retrato físico, seguidamente, aborda o seu retrato psicológico e por último alude a um retrato ideológico.

Num tom caricatural, e talvez inspirado no poema de Bocage “Magro, de olhos azuis, carão moreno,”, o sujeito poético faz a sua descrição física, deixando antever alguns traços psicológicos, de angústia e tristeza “(…) da angústia da cara,” e “(…) omita-se o olho triste (…)”. Apresenta, também, alguns rasgos de sobranceria ao afirmar “a ferida desdenhosa e não cicatrizada.”, revelando uma atitude de superioridade em relação aos demais e salientando a presença de uma ferida difícil de cicatrizar, ou seja, que se perpetua no tempo sem cessar.

Entre os versos cinco a oito, o sujeito poético esboça o seu retrato psicológico/moral. Percebe-se que está imbuído de algumas características, talvez pouco abonatórias, que não são apresentadas, possivelmente, pelo facto do poema ter sido publicado em pleno Estado Novo, como deixa transparecer o verso “(aqui, uma pequena frase censurada…)”. Parece que o que fica por dizer seria algo condenável aos olhos de outros ou aos olhos do próprio regime salazarista.

Na terceira parte do poema, a partir do verso nove, surge o retrato ideológico, onde o sujeito poético mostra a sua sensibilidade e afetuosidade em relação aos outros, apesar de este seu lado mais ternurento lhe trazer alguns dissabores, como está presente, de forma antitética, no verso, “Mas sofre de ternura”. Paralelamente, encerra o poema com uma espécie de autocrítica, rindo-se de si próprio ou tendo consciência de que o que foi dito não corresponde à realidade, “(…) bebe de mais e ri-se / do que neste soneto sobre si mesmo disse…”.

• Poema “Gaivota”

Este poema foi escrito para a voz de Amália Rodrigues, por este motivo a sua estrutura pauta-se pelo ritmo e musicalidade, conseguidos através da regularidade estrófica, três estrofes em sextilhas, alternando com três quadras, que funcionam como refrão, ainda que com pequenas alterações. A rima está presente ao longo de todo o poema assim como a regularidade métrica.

O sujeito poético inicia as três sextilhas pela conjunção subordinativa condicional “Se”, remetendo, desde logo, para a ideia de um desejo, acentuado pelo recurso ao modo conjuntivo. A primeira estrofe demonstra que o sujeito poético está afastado de Lisboa, situação que lhe traz alguma melancolia e que seria dissipada se uma gaivota lhe pudesse trazer alguma novidade, “Se uma gaivota viesse / trazer-me o céu de Lisboa”.

A terceira estrofe apresenta uma nova alternativa, as novidades poderiam vir através de um marinheiro, pois só dessa forma o coração do sujeito poético ficaria preenchido.

Na quinta estrofe, o sujeito poético sugere que se os dois desejos apresentados, anteriormente, não se concretizassem, então que lhe dessem a oportunidade de um último olhar que lhe permitisse uma despedida, no momento de dizer adeus à vida, “(…) me dessem na despedida / o teu olhar derradeiro,”.

As segunda, quarta e sexta estrofes funcionam como refrão e reforçam a ideia de que o sujeito poético só seria feliz na presença da pessoa amada, “Que perfeito coração / no meu peito bateria”.

Imagem de “Portugal”, de Alexandre O´NeillVeja Também“Portugal”, de Alexandre O´Neill

Bibliografia Sumária

O’Neill, Alexandre (2000). Poesias Completas. Lisboa: Assírio & Alvim

Sumário

  • A pluralidade de sentidos da poesia surrealista.
  • Da tradição literária ao vanguardismo.
  • O ritmo e a musicalidade da poesia cantada.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "Poesias Completas", de Alexandre O´Neill
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Carla Silva/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021