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“O Fogo e as Cinzas”, de Manuel da Fonseca

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A Antologia "O Fogo e as Cinzas" destaca o progresso, a inovação (acesso aos meios de comunicação social, Rádio e Imprensa) como fator de mudança na sociedade/comunidade. O conto "Sempre é uma Companhia" apresenta a solidão como um problema social e como a Rádio pode invadir e beneficiar a vida das pessoas.

Resumo

Contos

A antologia neorrealista e com tendência regionalista, editada em 1951, é para o próprio autor o reflexo de um desânimo e desapontamento perante a vida. Tem como leitmotiv uma crueza social, rural, real e precária, que se pode assumir como o germe da própria transformação profunda, urgente e emergente. A obra aborda o Homem do Alentejo dos anos 40, do séc. XX, que surge condicionado pelos fatores socioeconómicos mas com poder de ação e capacidade para constituir mudança.

“Sempre é uma Companhia” (conto)

Como se podem fomentar as relações pessoais? Haverá “acontecimentos extraordinários” que agitam as formas de estar e de ser?

Numa aldeia alentejana, Alcaria, vive pachorrentamente Batola com a sua esposa. O casal tem uma venda (mercearia/café) que serve comercialmente a população. A vida naquela aldeia é repleta de monotonia, solidão, desânimo e desespero, conduzindo mesmo ao suicídio do velho amigo Rata.

Certo dia, um caixeiro viajante traz um objeto que fará toda a diferença, um rádio, que mais não é do que o contacto com a cultura, o mundo exterior à aldeia e que, estranhamente, encerra em si mesmo a capacidade de interação entre os populares e apazigua o casal.

As relações pessoais e sociais assumem uma nova dimensão, a comunidade adquire uma nova forma de funcionar devido à informação que recebe sobre o mundo exterior à aldeia e devido à reflexão que faz.

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Personagens

Batola; o velho Rata; caixeiro-viajante; mulher do Batola

Temática e texto

. A Desesperança

É-nos mostrada a falta de ânimo e de crença no futuro: o homem vive num ambiente opressivo, sombrio, desconfortável quase que de forma animalesca… violenta. Batola e o seu amigo (que se suicida) são personagens que carregam a tristeza da incompatibilidade da vida e na vida. São indivíduos condenados à perdição…

. Aldeia, um espaço de isolamento e de solidão

Alcaria, um espaço personificado, sobrevive a um isolamento sociogeográfico, quase improdutivo, abandonado e recolhido em si mesmo. Tem dificuldade em alargar os horizontes e ver a possibilidade de mudança, bastando para isso a vontade dos homens.

A Rádio (telefonia) é um objeto “moderno”, portador de mundo e do progresso, alavanca para a mudança de atitudes, promotor de convivialidade e de boas relações sociais e familiares, pois, na realidade, “sempre é uma companhia neste deserto”. A Rádio, e toda a informação que veicula sobre a guerra e diversão e convívio que proporciona, apazigua a solidão e a mágoa do isolamento dos aldeãos. Dá-lhes ânimo apesar de inicialmente causar muita estranheza.

O Alentejo rústico, e em decomposição, surge como uma terra maravilhosa de boa gente e onde o progresso lentamente ocorre mas também com uma certa avidez por mudança, como que procurando a salvação “Só de lá saíram depois da voz se calar…discutindo ainda, pelas portas, numa grande animação.”.

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. A comunicação e as relações humanas

O indivíduo surge infeliz, ansioso e instável porque isolado mas com valências para gerir as (inter)relações positivas e construtoras de felicidade e bem estar. Evidencia-se o papel do social como modelador do individual. Este aspeto está presente em toda a obra, mas destaca-se a última frase da esposa do Batola onde é notório o “peso” da condição social, do contexto vivido.

A comunicação, que se nutre paulatinamente por influência da telefonia, tem vantagens, pois a violência doméstica ameniza-se, o convívio e o ânimo tomam conta de toda a população na medida em que “Um sopro de vida paira agora sobre a aldeia. Todos sabem o que acontece fora dali.”(p.156)

A Rádio tem mesmo o poder de tornar a população mais sensível, mais recetiva à voz do outro e à arte, “E grandes silêncios quando aquela voz fala de cidades conquistadas…Também silêncio para ouvir as melodias que vêm de longe até à aldeia, e que são tão bonitas!…”(p.156) O aparelho radiofónico e tudo o que representa, a informação, a comunicação, a partilha, o convívio, a arte, o pensamento humano, tem a capacidade de modelar formas de ser rústicas, taciturnas, repletas de “negrume fechado” (p.157) e de as fazer evoluir.


Bibliografia Sumária

Fonseca, Manuel. (1998). O Fogo e as Cinzas. Lisboa: Editorial Caminho.

Infante do Carmo, Carina. (2012). “Manuel da Fonseca e a Escrita da Violência”. In Nova Síntese, n.º 6. Lisboa: Colibri, pp. 103-118. In http://hdl.handle.net/10400.1/5899.

Ribeiro, Ana. (2019). “Histórias ‘de proveito e exemplo’ em representações da infância de Manuel da Fonseca”. In C. I. Carmo e V. Magalhães (coord.), Neo-realismo e infância. Lisboa: Colibri, pp.61-74. In http://hdl.handle.net/1822/63049.

Sumário

  • As mudanças podem criar instabilidade e até insegurança mas podem representar evolução, progresso e é isso que significa a chegada da rádio (telefonia) à venda da aldeia de Alcaria.
  • A comunicação e o convívio social são vitais para o ser humano, combatem a solidão.
  • A informação e a aprendizagem podem promover o pensamento crítico e o respeito por si e pelo outro.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "O Fogo e as Cinzas", de Manuel da Fonseca
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Paula Cristina Ferreira/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021