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Efeitos humanos e económicos da Guerra Colonial
Efeitos humanos e económicos da Guerra Colonial
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A Guerra Colonial teve custos elevados em termos humanos e económicos. Num país com população reduzida mobilizou-se mais de um milhão de militares (recorrendo-se também à africanização do contingente), dos quais morreram 8831 militares enquanto mais de 150 000 ficaram feridos, continuando em muitos casos a apresentar lesões físicas ou psicológicas - como stress pós-traumático - para o resto da vida. Os custos económicos equivaleriam a um gasto total aproximado de 21,8 mil milhões em euros.

Os treze anos da guerra colonial, entre 1961 e 1974, em três frentes (Angola, Guiné e Moçambique) tiveram custos humanos e económicos na metrópole e nas colónias.

Os números oficiais das «campanhas de África» desde 1961, revelados pelo Estado Maior General das Forças Armadas em 1990, indicam 8831 mortos e cerca de trinta mil feridos, sendo a maior parte do exército, apontando ainda para a existência de  140 mil militares com distúrbios pós-traumáticos do stress de guerra.

O número de mortos e feridos é melhor entendido se tivermos em atenção o total de efetivos militares mobilizados para as três frentes de guerra, que ascenderam a mais de 1 368 900, dos quais cerca de 120 000 foram enviados em 1970 e cerca de 150 000 em 1973, ano em que a mobilização de efetivos militares correspondeu a quase 7% da população ativa.

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Estes números englobavam ainda os efetivos militares recrutados localmente (cerca de 20% na Guiné, 40% em Angola e 50% em Moçambique), mas que eram enquadrados por chefias metropolitanas. Esta africanização do contingente militar pretendia responder à necessidade crescente de soldados e era justificada pela lógica de que Portugal era uno e multirracial.

Essa mesma lógica foi usada para convencer as populações locais a deixar de apoiar os movimentos de libertação, passando o corpo médico e de enfermagem militar a oferecer cuidados de saúde e a realizar campanhas de vacinação para fomentar a ideia de que Portugal protegia e socorria todos os seus habitantes em qualquer lugar.

Foram ainda criados aldeamentos, onde se ofereciam habitação e condições de saúde e educação, para afastar as populações locais dos guerrilheiros. Estas medidas foram melhor aceites em Angola por haver muitos deslocados devido à guerra no norte e no leste, do que em Moçambique onde os povos foram forçados a deixar as suas terras ancestrais.

O regime apostou ainda em campanhas de Ação Psicológica para convencer os guerrilheiros a entregarem-se com as suas armas. Procurava-se, desta forma, desmobilizar os movimentos de libertação, que tinham como estratégia a guerrilha, uma forma de combate que permitia aproveitar os conhecimentos do terreno e a mobilidade dos seus efectivos – normalmente menores – para infligir o máximo de baixas.

O exército português recebeu também treino antiguerrilha, com base na experiência dos EUA na guerra Vietname, usando a força aérea para cortar o abastecimento aos guerrilheiros (feito pela URRS, China ou Cuba do bloco soviético). É bom não esquecer que a guerra colonial foi um dos palcos da Guerra Fria entre os blocos capitalista e comunista. Essa é uma das razões porque nos anos 70 os guerrilheiros usavam mísseis terra-ar mais sofisticados do que o material bélico português.

Os custos humanos incluem ainda a morte de civis, sobretudo entre a população local, muitos devido a bombardeamentos com napalm, supostamente só utilizado contra alvos militares. O acontecimento mais dramático envolvendo civis ocorreu em Moçambique, em 1972, com cerca de 400 mortos entre homens, mulheres e crianças nos massacres de Wiriyamu.

Outro dos custos humanos foi a emigração ilegal de muitos jovens que abandonaram o país para não irem para a guerra, o que se refletiu não só na demografia, como na economia.

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Os custos económicos da guerra colonial foram elevados. A mobilização e manutenção de forças militares para a defesa e segurança dos territórios ultramarinos absorvia, em 1971, quase 45% das receitas do estado, como escrevia Marcello Caetano a Kaúlza de Arriaga, Comandante em Chefe das Forças Armadas em Moçambique.

A evolução das despesas extraordinárias das Forças Armadas Portuguesas passou de pouco mais de 2 milhões de contos em 1961 para 12 milhões em 1974, o que equivaleria a um gasto total aproximado de 21,8 mil milhões em euros, isto é, 10,8% do PIB atual.

A persistência de Marcello Caetano na defesa dos interesses das populações brancas, mantendo uma guerra que estava longe de ser ganha, acabou por ser o rastilho para a queda do regime, quando os capitães se consciencializaram da iminência da derrota, na Guiné e em Moçambique, e procuraram uma solução política.

Síntese:

  • A guerra colonial mobilizou mais de 1 368 900 de efetivos militares nas três frentes, englobando ainda soldados recrutados localmente (cerca de 20% na Guiné, 40% em Angola e 50% em Moçambique).
  • Os custos humanos entre os efetivos militares foram elevados: 8831 mortos, cerca de 30000 feridos e cerca de 140 000 com distúrbios pós-traumáticos do stress de guerra.
  • Também entre a população civil local houve baixas.
  • Durante a guerra colonial usaram-se estratégias para tentar controlar a guerrilha (a Ação Psicológica) e as populações locais (os aldeamentos). Os custos económicos da guerra colonial foram elevados equivalendo a um gasto total aproximado de 21,8 mil milhões em euros, isto é, 10,8% do PIB atual. Em 1971 absorvia quase 45% das receitas do estado.

Temas

Ficha Técnica

  • Área Pedagógica: Avaliar os efeitos humanos e económicos da Guerra Colonial na metrópole e nas colónias.
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Associação dos Professores de História/Mariana Lagarto
  • Ano: 2021
  • Imagem: Patrulhamento na zona da “Pedra Verde”, Arquivo Histórico Militar/ Manuel da Graça e Costa. PT/AHM/FE/110/B2/MD/12