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Mudanças sociais e económicas no princípio do século XX
Mudanças sociais e económicas no princípio do século XX
Ensino:

A migração do campo para a cidade, proporcionada pelo crescimento da indústria, levou à desagregação de antigas relações de solidariedade criando novas formas de sociabilidade. A I Guerra Mundial dará um impulso às reivindicações feministas demonstrando também que a ciência poderia ter fins contrários aos do positivismo. Neste contexto, as vanguardas de início do século protagonizarão igualmente uma ruptura radical com modelos artísticos anteriores.

Ao longo do século XIX regista-se um grande movimento migratório do campo para a cidade, que incluía a migração entre países, que se prolonga nas primeiras décadas do século XX. Este movimento surge associado ao emprego proporcionado pelo desenvolvimento e crescimento da indústria, do comércio, da banca, dos serviços e da administração pública.

O progresso dos meios e redes de transportes, nomeadamente a ferrovia e o transporte marítimo, foi um factor fundamental nesta migração. A concentração da indústria, do comércio e dos serviços em áreas urbanas levou a um crescimento das cidades, as novas metrópoles, mas também à criação de zonas mais vastas de grande concentração populacional, as megalópoles, compostas por redes de cidades ligadas pelas diversas vias de comunicação. E se a progressiva iluminação dos centros urbanos a gás havia juntado ao crescimento espacial da cidade um aumento do tempo da vida pública, as várias aplicações da eletricidade de finais do século XIX em diante terão repercussões profundas em praticamente todas as áreas elencadas, sendo ainda determinantes para diversas atividades de lazer, como o cinema.

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Todas estas transformações levarão a uma mutação profunda que atravessa toda a sociedade. Ao trabalho fabril correspondia a incipiência ou ausência dos direitos dos trabalhadores, aos quais se juntava a desagregação de antigas relações informais de solidariedade e de núcleos familiares, desmantelados pelas deslocações massivas de migrantes. Estas pessoas eram agora anónimas num território que lhes era estranho e, dadas as más condições de vida de grandes fatias da população, largamente hostil.

Na mudança de século assiste-se a um crescimento do movimento associativo e a fortes reivindicações políticas, nomeadamente por parte de movimentos sindicais e feministas. Apela-se à necessidade de higienizar os centros urbanos e melhorar as condições de vida, luta-se pela regulação do horário de trabalho e redistribuição de riqueza, exige-se a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Tudo isto terá implicações na escolaridade em ambos os sexos, na criação de espaços e tempos de lazer, contribuindo ainda para o início da indústria de entretenimento.

A Primeira Guerra Mundial terá um papel decisivo nestas alterações. A integração massiva de mulheres no mundo do trabalho, substituindo os homens que haviam partido para a frente de batalha, bem como o maior peso que adquirem no núcleo familiar, darão um impulso significativo às reivindicações feministas. Conquistava-se o direito de voto ou o acesso a novas profissões, mas também se alterava a presença da mulher em espaços públicos, fosse pela alteração do vestuário, pela prática do desporto ou outras actividades lúdicas.

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A brutalidade desta guerra levará ainda a uma descrença generalizada num progresso social, cultural e político que o grande desenvolvimento científico dos séculos anteriores fizera parecer contínuo. Mas não só. A guerra havia demonstrado igualmente que a própria ciência poderia ser mobilizada para fins contrários aos de um humanismo ainda presente no Positivismo.

Concomitantemente, novas pesquisas científicas, como a proposição da Teoria da Relatividade por Albert Einstein, o método de psicanálise de Sigmund Freud ou o desenvolvimento das ciências sociais vinham alterando o modo de pensar sobre o mundo. Afirmava-se assim um relativismo que demonstrava a inexistência de uma verdade absoluta e universal, uma vez que a construção do conhecimento dependia sempre de uma visão subjetiva da realidade.

Este relativismo não implicava um abandono total de métodos que pudessem sustentar o conhecimento, mas vincava a ideia de que se cada campo de atividade obedecia a leis próprias e não a verdades universais, era então necessário tentar defini-las e explorá-las para que se pudesse atuar sobre ele e modificá-lo. Esta forma de pensamento estará também presente no campo da arte.

Já desde o século XIX que se vinham rejeitando os cânones da Academia, recusando-se os géneros da pintura e alterando-se as suas técnicas compositivas ou modificando-se as formas narrativas ou poéticas da literatura. As propostas artísticas de início do século protagonizavam uma rutura radical, presente claramente na adoção do termo vanguarda, retirado do léxico militar e que remete para a guarda avançada de uma batalha. Expondo assim o modo como foi entendido o choque frontal com o academismo protagonizado por práticas artísticas como o cubismo, o futurismo, o expressionismo, o construtivismo, o abstracionismo, o dadaísmo ou o surrealismo, que trabalhavam novas formas de expressão em que a dimensão do tempo, da memória ou da especificidade dos meios de trabalho estará presente.

Síntese:

  • A migração do campo para a cidade levou à desagregação de antigas formas de relação social.
  • A I Guerra Mundial dá um impulso às reivindicações feministas.
  • A I Guerra Mundial demonstrará que o desenvolvimento científico não implicava o contínuo melhoramento das condições de vida.
  • As vanguardas artísticas vão protagonizar uma ruptura radical com os cânones prevalecentes.

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Ficha Técnica

  • Área Pedagógica: Mutações nos comportamentos e na cultura As transformações da vida urbana e a nova sociabilidade; a crise dos valores tradicionais; os movimentos feministas. A descrença no pensamento positivista e as novas conceções científicas. As vanguardas: ruturas com os cânones das artes e da literatura.
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Associação dos Professores de História/André Silveira
  • Ano: 2021
  • Imagem: Sufragistas americanas colocam cartaz a anunciar manifestação em 1914, Library of Congress