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O renascimento e a superação dos modelos da antiguidade
O renascimento e a superação dos modelos da antiguidade
Ensino:

Os artistas do Renascimento tinham consciência de que a atenção à Antiguidade Clássica teria de se adaptar ao novo tempo que viviam. A superação da Antiguidade resultou do estudo de obras clássicas e de novos desenvolvimentos técnicos e teóricos. Uma das inovações fundamentais neste período é a perspectiva matemática, que permitia trabalhar a pintura, a escultura e a arquitectura mediante um mesmo princípio racional que afirmava a centralidade do observador.

Por Renascimento entende-se um movimento cultural que, entre os séculos XIV e XVI, se propôs recuperar um conjunto de conhecimentos técnicos e teóricos da Antiguidade Clássica que se pensavam perdidos ou esquecidos. Este retorno a fontes da antiguidade implicava igualmente uma valorização desse tempo histórico, considerando-o como um momento cujas concretizações técnicas e teóricas haviam suplantado as daquele longo período que denominaram de Idade Média.

O estudo de ruínas romanas, estatuária clássica ou textos da antiguidade, como por exemplo o tratado De Architectura de Vitrúvio, tornava óbvio a estes homens que havia um conjunto de conhecimentos que importava retomar. Neste sentido, trabalhar sobre aquelas fontes, copiá-las e estudá-las, permitia uma melhor compreensão dos seus princípios técnicos e teóricos. Porém, o ponto de partida não era já exatamente o mesmo do que caracterizara a Antiguidade.

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Veja-se por exemplo o avanço da matemática com a numeração árabe ou como os problemas colocados à pintura, à escultura ou à arquitetura também não eram similares, recordando-se neste último caso o impacto que o desenvolvimento da artilharia pirobalística teve na modificação das fortificações. Estes artistas e pensadores do Renascimento prosseguiam um programa claro de rutura com um momento imediatamente anterior, mas tinham igualmente consciência de que esta nova atenção à Antiguidade Clássica teria de seguir um caminho adaptado ao novo tempo que viviam, passível de ultrapassar os maiores feitos dessa mesma Antiguidade.

A certeza desta superação da Antiguidade era alicerçada no cruzamento entre a recuperação de autores e obras clássicas e um conjunto de novos desenvolvimentos técnicos e teóricos. Uma das inovações que terá lugar por estes anos e que será decisiva na pintura, na escultura e na arquitetura, é o desenvolvimento da perspetiva matemática. A sua hipótese e confirmação pela experiência é levada a cabo por Filippo Bruneleschi, por volta de 1416, sendo posteriormente desenvolvida e apurada por Leon Battista Alberti, Piero de la Francesca ou Leonardo da Vinci.

A perspetiva será fundamental para a arte do Renascimento por diversas razões. No caso da pintura, permitia a unificação do quadro mediante um mesmo princípio racional, que obedecia à definição de um ponto de fuga a partir de um posicionamento ideal do observador. Assim, os objetos organizavam-se de uma maneira coerente entre si na superfície do quadro, dando lugar a uma representação aparentemente mais fidedigna da realidade. Favorecia-se deste modo uma expressão naturalista na pintura, que fazia do rigor da observação e representação do homem e da natureza um dos seus motivos principais.

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O mesmo acontecia na arquitetura e na escultura. No caso da escultura, a sua aplicação podia encontrar-se na possibilidade de a partir do jogo entre baixos, médios e altos relevos, compor a superfície esculpida mediante os mesmos princípios organizativos da perspetiva matemática ou da perspetiva aérea: definição de planos em profundidade e adequação da representação dos objetos a essa sucessão de planos. Por outro lado, a capacidade de prever o ponto a partir do qual o observador olharia determinada escultura permitia que esta fosse executada em conformidade com esse mesmo ponto de vista.

De resto, tanto na escultura, como na pintura o apuramento dos estudos de botânica, zoologia e da anatomia humana, nomeadamente através do estudo do nu, ajudavam a essa expressão naturalista.

Por fim, no caso da arquitetura, a centralidade do observador e o desenvolvimento da perspetiva pode ser verificado de diferentes maneiras. A aplicação desta técnica não se reduzia à capacidade de representar uma realidade já existente. Se esta era fundamental para o levantamento mais rigoroso das zonas urbanas, era-o igualmente para a execução de estudos em desenho ou maquete que pudessem adaptar o modelo ideal de cidade renascentista à cidade pré-existente. Esse modelo de cidade radiocêntrica, cuja primeira definição se deve a Filarete (c. 1400-1469), era organizado a partir de uma praça da qual irradiavam ruas que definiriam a malha urbana, acabando por fazer corresponder a praça central ao ponto de fuga de uma representação perspética.

A adaptação das urbes a novos espaços públicos, ao melhoramento da circulação ou das condições de higiene implicou assim um trabalho de regularização e racionalização da malha urbana que se verificou não só na abertura de ruas ou praças, mas também na harmonização dos planos das fachadas.

Síntese:

  • Os artistas do Renascimento adaptaram modelos clássicos ao tempo em que viviam.
  • A superação da Antiguidade deveu-se a novos desenvolvimentos técnicos e teóricos.
  • A perspetiva matemática contribuiu para a definição das artes sob um mesmo princípio racional.

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Ficha Técnica

  • Título: Imitação e superação dos modelos da antiguidade. A centralidade do observador na arquitetura e na pintura: a perspetiva matemática; a racionalidade no urbanismo. A expressão naturalista na pintura e na escultura.
  • Autoria: Associação dos Professores de História/André Silveira
  • Produção: RTP/ Associação dos Professores de História
  • Ano: 2022
  • Imagem: Notas e diagramas sobre perspetiva, Leonardo Da Vinci. Codex de Arundel/ British Library