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“Só”, de António Nobre

Imagem de “Só”, de António Nobre

António Nobre (1867-1900), na sua obra "Só", apresenta uma coletânea de poemas povoada de espaços e gentes que marcaram a sua infância e adolescência felizes, passadas no norte de Portugal. Este país rural vai ser o cenário primordial da poesia de Nobre que recupera o imaginário tradicional português e o concilia com a modernidade.

Resumo

Desiludido com a vida estudantil coimbrã, com a qual contactou durante a frequência do seu curso de Direito, decidiu rumar a Paris, cidade onde se licenciou em Ciências Políticas. Foi nesta capital que António Nobre se familiarizou com as novas tendências da poesia do seu tempo e assumiu o simbolismo como a sua referência literária. Em 1892, publica a primeira edição da sua obra Só, apresentando uma coletânea de cerca de trinta poemas. A segunda edição foi publicada em 1898, na qual surgem mais cerca de trinta novas composições poéticas, passando a estar organizada em oito secções. Alguns dos críticos defendem que esta organização se deve ao facto de o livro ser, por um lado, uma biografia do poeta e, por outro, um retrato de Portugal. Só, o único livro publicado em vida do autor, assume-se como um marco na poesia portuguesa do século XIX, no qual Nobre relembra a sua infância feliz passada no norte de Portugal, entre Trás-os-Montes e Póvoa do Varzim.

Imagem de António Nobre, Poeta SóVeja TambémAntónio Nobre, Poeta Só

Uma das originalidades da sua obra é o facto de associar ao simbolismo marcas românticas, visto a importância que o poeta dá ao destino, causador de alguma da sua infelicidade. Por outro lado, em alguns poemas, Nobre deixa transparecer um certo saudosismo nacionalista, talvez devido ao período que passou em Paris. Sente saudade da pátria e anseia não só o regresso às origens, mas também o retorno ao passado feliz. Estes são alguns dos motivos pelos quais os críticos consideram que o Só faz eco de um romantismo tardio, apresentando características do neogarrettismo (movimento que reaviva os ideais de Almeida Garrett, nomeadamente o nacionalismo literário e a valorização do património cultural português).

Outra das particularidades da sua obra, é o tom narrativo que confere aos seus poemas, transformando-os numa história poetizada, a fazer lembrar o romanceiro popular. Esta estrutura dialógica traz para o universo poético a coloquialidade e a naturalidade dos falares do quotidiano, combinando-os com diversas opções estéticas. Das expressões populares a vocábulos mais eruditos, Nobre cultivou o gosto pelas redondilhas menores, os versos decassílabos e alexandrinos.

Da fronteira que se estabelece entre o tradicional e o novo, nasce a originalidade da poesia de Nobre que, apesar de apresentar marcas do simbolismo, como a sugestão ou a imagística, também narra histórias, descreve ambientes, uns vivenciados pelo poeta, outros que lhes foram narrados, certamente, durante a infância feliz que viveu.

Temática e texto

Em toda a obra de António Nobre perpassa a imagem de um Portugal agrário, sem sinais da revolução industrial. O poeta procura um regresso a um passado feliz, na companhia da família. Este é um dos motivos pelos quais a saudade é um dos temas presentes na sua poesia. Paralelamente, temas como o exílio, a pátria e a morte também fazem parte da obra do poeta.

Imagem de António Nobre: a dimensão da prosa na poesiaVeja TambémAntónio Nobre: a dimensão da prosa na poesia

“Na praia lá da Boa Nova, um dia,”

A praia da Boa Nova, em Leça da Palmeira, é um dos espaços que Nobre recupera para a sua poesia. Nesse soneto, o local surge como um porto de abrigo, a partir do qual a imaginação do poeta o conduz a lugares imaginários, construindo um mundo de fantasia. O primeiro verso, e também título do soneto, indica, desde logo, a distância que separa o sujeito poético do local e da época em que foi feliz.

O poema pode dividir-se em duas partes, estabelecendo-se uma oposição entre o antes e o depois, a felicidade e a tristeza, o sonho e a realidade. Num passado distante, o sujeito poético, com recurso a elementos simbólicos, apresenta a sua alegria e o seu poder, “Edifiquei (foi esse o grande mal) / Alto Castelo, o que é a fantasia,”, “Oh Castelo tão alto! parecia / O território de um senhor feudal”. No entanto, no momento presente tudo se desmoronou “Porque eu já fui um poderoso Conde, / Naquela idade em que se é conde assim.” e o pessimismo apodera-se do sujeito poético.

Imagem de “Na Praia lá da Boa Nova, um dia”, de António NobreVeja Também“Na Praia lá da Boa Nova, um dia”, de António Nobre

“Aqui, sobre estas águas cor de azeite,”

Neste soneto, o sujeito poético mais uma vez recupera o tempo da sua infância, povoado por diferentes personagens que lhe causam uma certa reminiscência afetiva “Carlota, à noite, ia ver se eu dormia / E vinha, de manhã, trazer-me o leite.”. Ao longo do poema, estabelece-se uma oposição entre um “aqui” e um “lá” que correspondem a momentos de tristeza e nostalgia e momentos de felicidade e alegria, respetivamente “Cismo em meu Lar, na paz que lá havia:”, “Aqui, não tenho um único deleite!”. Especialmente na segunda parte do poema, correspondente aos dois tercetos, o sujeito poético acentua a sua melancolia e tristeza por não conseguir recuperar o tempo vivido “Ah pudesse eu voltar à minha infância!”. De forma emotiva, reforçada pelo uso da interjeição e da frase exclamativa, o sujeito poético toma consciência do desmoronamento da sua vida e dum passado feliz, impossível de recuperar. O poema termina com referência às histórias de encantar que povoaram a infância do poeta.


Bibliografia Sumária

Nobre, António (2000). Porto: Publicações Dom Quixote.

Morão, Paula. O Só de António Nobre – uma leitura do nome. Lisboa: Editorial Caminho.

Sumário

  • A felicidade do passado em oposição à angústia do presente.
  • A coloquialidade e o tom narrativo como características da poesia de Nobre.
  • Da tradição popular à modernidade do simbolismo.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: "Só", de António Nobre
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Carla Silva/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021