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Um retrato de Lisboa na transição do século XX

Eça de Queirós diz que a Lisboa de oitocentos é uma grande aldeia. Nesta imagem provinciana cabe o atraso de um país inteiro, a viver na periferia da civilização. Devagar, muito devagar, que o progresso assusta, a capital atreve-se a crescer e a ser outra.

Nesta Lisboa dos tempos antigos, desfilavam pregões nas ruas cheias de vendedores ambulantes que disputavam o comércio com os raros lojistas. Tudo se negociava e regateava, a cidade funcionava como um mercado a céu aberto.

Os aguadeiros levavam água ao domicílio, as lavadeiras carregavam trouxas de roupa, os saloios vinham com os jumentos cheios de produtos frescos dos arrabaldes da capital. Varinas, padeiros, leiteiros, andavam porta a porta a fazer as vendas. Sem água canalizada, muitos  lisboetas mergulhavam no Tejo para o banho semanal. E a difícil tipologia da cidade, feita do sobe e desce das colinas, era vencida a pé, a cavalo ou de carruagem coletiva sobre carris, a tração animal.

São cenas como estas, carregadas de pitoresco que fazem a tradição alfacinha por muitas décadas mesmo depois do progresso e dos novos inventos começarem a chegar à cidade em finais do século XIX.

A lenta marcha do progresso

A eletricidade, por exemplo, conquista a indústria mas não totalmente Lisboa, que prefere os candeeiros a gás a esta extravagância.

O carro elétrico, de velocidades até aí inimagináveis, é recebido com desconfiança mas ajusta-se às novas necessidades de uma população que começa a viver do outro lado da cidade: nas avenidas novas ficam as classes médias, nos bairros residenciais e nos industriais, as camadas mais pobres e os operários  que trabalham nas fábricas recentemente instaladas na malha urbana, como as do Cais do Sodré e Alcântara.

A modesta Lisboa já não consegue albergar tanta gente que vem à procura de melhores salários, no espaço de 50 anos o número de habitantes duplicou para quase meio milhão de almas.

Rompem-se artérias, roubadas a terras de cultivo, para construir com materiais mais resistentes, quarteirões de prédios situados para lá da avenida da Liberdade, inaugurada em 1886. Das Picoas ao Campo Grande há um mundo a nascer. E na  zona ribeirinha, avança-se sobre o rio, para dar a devida largueza  à 24 de Julho. As áreas insalubres desaparecem.

Entre renovações e demolições, a cidade é um estaleiro de obras públicas, mas não se faz tudo o que se quer: a contenção é imposta pelos escassos meios financeiros. A modernidade tem um preço que os portugueses não podem pagar.

A sociedade na moda

Em Lisboa vive-se à moda de Paris: do que se lê ao que se veste, tudo tem o chique francês. Os boulevards parisienses impõem um cosmopolitismo e uma outra atenção à utilização do espaço público: os jardins renovam-se numa dimensão romântica, funcionam como uma montra da sofisticada burguesia que se veste a rigor para ver e ser vista.

As ruas são calcetadas, embelezadas com basalto e calcário num jogo geométrico que fica tradição e empresta requinte e qualidade a um simples passeio a pé.

E o que dizer do automóvel? Essa novidade  ruidosa, de motor a explosão, que toda a gente se encolhe para deixar passar…Em 1902, já há corridas de carros no hipódromo de Belém mas este meio de transporte é ainda uma raridade nas ruas lisboetas, existem cerca de 150 na viragem do século. Depressa o número vai quadriplicar, as classes altas não resistem ao novo símbolodes ostentação.

A revolução das novas máquinas, da cidade que fica urbana, que fala esta peça, realizada a propósito da exposição “Lisboa em Movimento” que decorreu no Museu da Cidade em 1994.

O arquiteto José Manuel Fernandes faz um retrato dos anos que modernizaram Lisboa, quando a capital portuguesa  se abriu ao futuro e assistiu ao homicídio de um rei e ao fim da monarquia ditada pela insurreição republicana de 1910.

 

Ficha Técnica

  • Título: Magazine de Artes Visuais
  • Tipo: Extrato de Programa Cultural
  • Autoria: Isabel Colaço e Alexandre Melo
  • Produção: Produção Zebra para a RTP
  • Ano: 1994

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