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Prisão do Aljube: a tortura passou por aqui

Recorrer à força para calar opositores, resistentes e conspiradores era prática comum na ditadura de Salazar. Para manter a ordem pública, a polícia perseguia, prendia - muitas vezes sem julgamento -, espancava e torturava. Nesta cadeia, um dos cárceres exemplares do Estado Novo, milhares de homens experimentaram os métodos sinistros da PVDE, mais tarde PIDE. Uma história de repressão com 37 anos contada agora no edifício do Aljube, Museu da Liberdade e da Resistência. Uma história que serve também para esclarecer quem tem dúvidas sobre a natureza dos regimes fascistas, totalitários e autoritários. E dos crimes terríveis que cometem para se perpetuarem no poder.

Antiga cadeia do Aljube, Lisboa. Cerca de 30 mil homens passaram por aqui durante o Estado Novo. Eram fechados em celas minúsculas de metro e meio por dois e vinte, apenas com um catre basculante para se deitarem ou sentarem numa enxovia em palha, sem lençóis, quase na escuridão total. A tortura começava por ser psicológica nestes espaços asfixiantes –  gavetas ou curros, como ficaram conhecidos -, onde permaneciam dias, semanas ou meses seguidos em total isolamento, sem poder ler, escrever, comunicar com outros presos ou receber visitas. Nem relógios tinham para contar as horas da angustiante solidão, apenas interrompida pela voz do carcereiro a chamá-los para novo interrogatório. Com toda a brutalidade que um interrogatório implicava.

Entre 1928 e 1965, ano em que estas celas foram desativadas, o Aljube fez parte do “roteiro de terror” que incluía os fortes de Caxias e Peniche e os campos de concentração das antigas colónias. Ao serviço do regime, a polícia política prendia antifascistas, comunistas, todos de quem suspeitava e os que se opunham a Salazar num exercício de medo e repressão que contava com a passividade dos tribunais políticos e plenários. A PVDE, mais tarde PIDE, depois DGS, soube montar uma enorme rede de escutas e de informadores, muitos deles voluntários; aprendeu e desenvolveu métodos de tortura em manuais de polícias fascistas e “até de regimes democráticos, como os Estados Unidos.”

A estátua – manter o preso em pé, na mesma posição durante horas ou dias seguidos-, a privação do sono – estar constantemente a ser acordado -, e, sobretudo, muita pancada, eram práticas recorrentes nas continuadas sessões de tortura com efeitos devastadores que podiam deixar marcas para sempre. Embora o objetivo não fosse executar os opositores, mas silenciá-los para acabar com as atividades consideradas subversivas, muitos dos que foram apanhados pela polícia ficaram pelo caminho e morreram. E depois, havia os que arriscaram a vida em fugas impróprias para homens com vertigens. Como aconteceu no Aljube, espaço que foi sempre cadeia desde o tempo dos muçulmanos.

Por aqui começa a visita a este edifício no centro da cidade, outrora sinónimo de violência. Com o politólogo António Costa Pinto conhecemos histórias das vítimas do regime, daqueles que resistiram e lutaram pela liberdade. E conhecemos também uma parte importante da História do século XX português.

Ficha Técnica

  • Título: Visita Guiada - Prisão do Aljube
  • Tipo: Programa Cultural
  • Autoria: Paula Moura Pinheiro
  • Produção: RTP
  • Ano: 2016

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