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“Sermão da Sexagésima”, de Padre António Vieira

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O "Sermão da Sexagésima", de Padre António Vieira, trata aspetos da arte retórica, apresentando os elementos que resultam num sermão de qualidade. É um texto que critica os pregadores que se atêm apenas à beleza dos aspetos formais dos textos, esquecendo que a finalidade de qualquer prédica deve ser a evangelização por meio da difusão da palavra de Deus.

Resumo 

O Sermão da Sexagésima, de Padre António Vieira, foi pregado a 31 de janeiro de 1655, na Capela Real de Lisboa.

Com base no conceito predicável «Semen est verbum» («A semente é a palavra de Deus»), Vieira recorda a parábola do semeador, contando que o trigo que este semeou nas pedras, nos espinhos, na estrada e na terra, só no último elemento vingou. A partir daqui, desenvolve a metáfora «pregar é semear», o que lhe vai permitir defender que a palavra de Deus não frutifica por culpa dos pregadores, que pregam mal dado terem como objetivo agradar aos homens ou a si próprios, e não cumprir a missão dada por Deus.

O sermão organiza-se em dez capítulos, que integram quatro partes estruturais. Na primeira, o Exórdio (cap. I), Vieira apresenta a metáfora do semeador, defendendo que o pregador semeia a palavra de Deus. Na Exposição (cap. II), pergunta quem será o responsável pela pouca eficácia da palavra de Deus: o pregador, o ouvinte ou Deus?

A terceira parte, a Demonstração (cap. III), trata as causas da ineficácia das pregações, concluindo o orador que o culpado é o pregador. Com base nesta conclusão, enuncia a sua teoria sobre a arte de pregar, refletindo sobre a importância da pessoa, da ciência, da matéria, do estilo e da voz.

No capítulo IV, Vieira considera a pessoa do orador, defendendo que este deve pregar o que se faz e não se limitar a pregar palavras. No capítulo V, analisa o estilo, que deve ser natural e claro. Sobre a matéria a tratar (cap. VI), sustenta que esta deve ser comprovada por citações de textos autorizados e deve persuadir o auditório.

O capítulo VII dedica-se à ciência, defendendo Vieira uma pregação que vise a compreensão de quem a ouve. No capítulo VIII, defende-se que a voz deve ser usada como ajuda no entendimento. Como síntese da argumentação, Vieira conclui que nenhum dos aspetos tratados constitui a verdadeira razão para que a palavra de Deus não dê frutos.

A última parte do sermão, a Peroração, retoma-se a questão inicial, apresentando o orador a causa do problema colocado: os pregadores pregam as palavras de Deus, mas não a palavra de Deus.

Imagem de Padre António Vieira: a vida do jesuíta em três fasesVeja TambémPadre António Vieira: a vida do jesuíta em três fases

Temática e texto

• A arte da boa retórica

O Sermão da Sexagésima é considerado um tratado de retórica. Aqui Vieira apresenta conselhos e censuras suscetíveis de contribuir para um texto desta natureza. Trata-se, portanto, de um sermão algo atípico porque se institui como um texto onde se reflete sobre o género, o que se afasta das finalidades típicas de um sermão.

Se considerarmos que o sermão era, por excelência, o género maior do século XVII, funcionando como instrumento de evangelização e de consolidação da fé, percebemos a importância de constituir um texto de qualidade. É neste conceito que se entroncam as críticas do orador aos exageros de algumas pregações que resultavam em prédicas malsucedidas.

Refira-se, no entanto, que as recomendações que Vieira deixa são de âmbito generalista, pelo que o Sermão da Sexagésima não constitui um manual de indicações detalhadas sobre a arte de redação do sermão.  Ainda assim, este é um texto no qual o autor assume uma posição contra a retórica oca, assente na exploração de jogos de linguagem e no aperfeiçoamento de um estilo rebuscado e opaco, que denotam uma preocupação com o sermão em si próprio e não com o fim da evangelização: «Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza?»

Para Vieira, expor e pregar são fins completamente diferentes de ensinar e persuadir (que, para ele constituem o verdadeiro objetivo da pregação). Explica ainda o pregador que, para se construir um texto de qualidade, há que estabelecer a matéria, dividi-la, prová-la com a escritura e com a razão, apresentar argumentos e refutar as ideias dos oponentes.

• A alegoria da árvore da retórica

Partindo da metáfora que sustenta que o bom sermão é o que dá fruto, Vieira desenvolve a alegoria da árvore da retórica,  apresentada como um modelo daquilo que o sermão deveria ser: tem raízes porque se funda no Evangelho; tem um só tronco porque trata um só assunto; tem diversos ramos, que são os discursos nascidos da mesma matéria; e tem folhas, que são o ornamento feito com palavras. Diferentes partes da árvore destinam-se a fins diversos: as varas servem para castigar e corrigir os vícios; as flores são as sentenças, os adornos do sermão, para agradar aos ouvintes; os frutos representam a finalidade do sermão, que deve ser um alimento espiritual e guia de ação.

Vieira desenvolve a alegoria da árvore com o objetivo de levar o ouvinte a acompanhar o seu pensamento e a identificar cada uma das partes do discurso, recorrendo ao processo que converte o abstrato (a estrutura e a finalidade do discurso) em algo concreto, definido com elementos materiais e visíveis.

Imagem de Padre António Vieira, mestre da palavraVeja TambémPadre António Vieira, mestre da palavra

Bibliografia sumária:

Vieira, Pe A. (1984) Sermões escolhidos. Seleção, introdução e notas por Maria das Graças Moreira de Sá. Lisboa, Biblioteca Ulisseia.

Vieira, Pe A. (1978) Sermão de Santo António (aos Peixes) e Sermão da Sexagésima. Apresentação crítica, seleção e notas de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Seara Nova.

Ramírez Vida, G. (2020) “Análisis de la estrutura del “Sermão da Sexagésima” de Antonio Vieira” in  Franco, J. E. e Pereira, P. S. (2020) Revisitar Vieira no Século XXI: O Poder da Palavra: Escrita, Artes e Ensino de Vieira. Vol. II, Imprensa da Universidade de Coimbra.

Sumário

  • O Sermão da Sexagésima é um texto sobre a arte retórica.
  • O Sermão da Sexagésima desenvolve a metáfora da pregação como arte de semear.
  • O Sermão da Sexagésima critica os pregadores que se preocupam excessivamente com a beleza formal dos sermões.
  • O Sermão da Sexagésima explora a alegoria da árvore da retórica.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: O Sermão da Sexagésima
  • Área Pedagógica: Português - Educação Literária
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Carla Marques/ Associação de Professores de Português (APP)
  • Ano: 2021