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Mário Cesariny, militante do surrealismo

Traduziu a vida em escrita e pintura, linguagens que explorava na gramática do surrealismo. Mário Cesariny é talvez o militante mais genuíno deste movimento em Portugal. Pinturas, colagens, soprografias, compõem a sua obra plástica. É dela que falamos aqui

Aos 19 anos já escrevia, pintava e desenhava. Mário Cesariny, nascido em Lisboa, fazia-se cedo artista multifacetado. Frequenta o primeiro ano de Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, estuda depois na Escola António Arroio onde conhece alguns dos futuros companheiros do surrealismo português. Envolve-se, por pouco tempo, na corrente neo-realista. Em Paris, é aluno na Academie de La Grande Chaumiére e conhece o fundador e autor do manifesto do surrealismo francês. Este encontro com André Breton é a revolução da sua vida.

No Surrealismo, Cesariny encontra o espaço de liberdade criativa que procura. Aqui vai-se pelo sonho, pela imaginação, pelo amor, assente na técnica do automatismo psíquico e do acaso, sem imposições estéticas ou morais. Tudo está de acordo com a sua personalidade inquieta, polémica, subversiva. Regressa a Portugal com vontade de transgredir e de desafiar a poderosa máquina da ditadura. Queria ser livre no seu país.

No ano do regresso, em 1947, integra o Grupo Surrealista de Lisboa, por onde andavam Alexandre O´Neill, Marcelino Vespeira, António Pedro, Cândido Costa Pinto, João Moniz Pereira. Desentendimentos levam-no a fundar, dois anos depois, “Os Surrealistas”, com Pedro Oom, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, entre outros. Redigem um manifesto coletivo” A Afixação Proibida” e promovem a primeira exposição dos Surrealistas. São tempos de afirmação de um movimento, de que Cesariny se ocupará mais tarde, quando escrever a história das atividades surrealistas em Portugal.

Cesariny é intenso, na vida e na obra quer poética, quer plástica. Homossexual assumido, será muitas vezes detido pela polícia de costumes por “vagabundagem”. Mas como os gatos, criaturas da liberdade, que ama ou apenas admira numa inveja felina, regressa sempre para uma nova vida de desobediências. Está toda nas palavras que escreve e pinta, numa experimentação contínua da absoluta descoberta de um mundo mágico. Vemos isso no seu percurso pictórico: nas pinturas, nas colagens, nas “soprografias”, o sopro de tinta e, nas “sismografias”, obras que produzia enquanto viajava de elétrico, autocarro ou comboio. E há ainda o cadáver-esquisito, técnica que promoveu e que consiste na produção de uma obra em cadeia criativa, realizada por 3 ou 4 artistas, em tempo real.

Militante e defensor acérrimo do Surrealismo, Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) dirá mais tarde: “Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave, ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista!”.

Em 2002 foi-lhe atribuído o grande Prémio EDP de Artes Plásticas e, em 2005, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

  • Temas: Artes, Pintura
  • Ensino: 3º Ciclo, Ensino Secundário

Ficha Técnica

  • Título: Grandes Quadros Portugueses
  • Tipo: Extrato de Programa
  • Produção: Companhia de Ideias
  • Ano: 2012

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