“Obra Poética” e poema “Barco Negro”, de David Mourão-Ferreira
O sujeito poético enaltece as sensações despertadas pelo elemento feminino, pleno de sensualidade. Denotando traços nostálgicos, discorre sobre um tempo que não volta. A união do amor e da morte é destacada em alguns textos do autor, como se verifica em “Barco Negro”, um dos poemas em análise. Não se tratando de uma escrita de melancolia, este sentimento transparece de modo recorrente.
Resumo
David Mourão-Ferreira recorre a tópicos como o erotismo, a mulher e o envelhecimento.
O fluir do tempo torna-se implacável e as memórias são indissociáveis de tal constatação – trata-se de “o Tempo e os tempos” (Pereira, 1997). É esse correr incessante dos dias traduzido, na Obra Poética , em lembranças saudosas associadas a natais de infância, na presença de quem já não se encontra sentado em torno da mesa festiva.
Também em memória é convertido o sentimento amoroso, ligado à sensualidade e ao desejo.
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Temática e texto
“Maria Lisboa” pertence a um conjunto de poemas compostos entre 1954 e 1960, inseridos no título À Guitarra e à Viola. A composição foi popularizada através da voz da fadista Amália Rodrigues. A rapariga anunciada no título personifica uma cidade plena de movimento, tendo como espelho o rio. O espaço urbano é humanizado pela varina com a canastra – o cesto onde transporta o peixe para venda. Os versos destacam o campo lexical associado à atividade da rapariga: caravela, fragata, gaivotas, mar, algas, velas, traineira, maresia e tempestades. O Tejo é o espelho de Lisboa, elemento aglutinador que explica a escolha da figura retratada, temática que virá a ser retomada por outros poetas que retratam a beleza citadina, conferindo-lhe um rosto de mulher ou elegendo como núcleo temático o curso fluvial – os corvos, emblema da capital, dão lugar, neste poema, às gaivotas.
“Barco Negro” não se encontra publicado em antologias de autor, pois foi composto para um fado da mesma intérprete, incluído no filme Les Amants du Tage (Os Amantes do Tejo), estreado em Portugal em 1955. A música que acompanha os versos já havia sido criada em 1943, pertencendo à canção brasileira “Mãe Preta”, cuja letra consiste num grito contra a escravatura.
As palavras de David Mourão-Ferreira referem-se à partida de um pescador e ao receio sentido pela sua amada que, ao perceber a demora no regresso, se recusa aceitar o naufrágio e a morte de quem tanto ama.
Na abertura, é apresentada, em retrospetiva, a situação ocorrida antes da ida para a faina: os momentos de amor vividos na praia. São diversos os presságios que apontam para a tragédia – a cruz avistada numa rocha pela mulher e as viúvas de luto carregado que, no areal, a alertam para o possível desfecho da viagem. Na conclusão, é expresso, por parte daquela que não quer acreditar na perda, o sentimento de amor que a unirá para sempre ao homem que ama “dentro do meu peito/estás sempre comigo”.
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O soneto “E por vezes”, inicialmente publicado em Matura Idade (1973) dá conta de memórias expressas através de um tempo momentaneamente psicológico “E por vezes as noites duram meses”. As lembranças, de construção fragmentada, são reforçadas pelo recurso à anáfora “E por vezes”, repetida em todas as estrofes, com exceção para o primeiro terceto. A consolidar a reconstrução mental dos momentos vividos, é utilizado o encavalgamento entre o último verso da primeira quadra e o início da segunda “[…]E por vezes”; “encontramos de nós em poucos meses/o que a noite nos fez em muitos anos”, bem como entre o final da segunda estrofe e a abertura da terceira “[…]lembramos que por vezes”;“ao tomarmos o gosto aos oceanos”.
A composição salienta a irreversibilidade do tempo, temática recorrente no autor, sendo essa consciência expressa em tom nostálgico “E por vezes os braços que apertamos/Nunca mais são os mesmos[…]”. O correr dos dias, responsável pela saudade ou pelo esquecimento, é ainda lamentado com recurso à interjeição presente nos dois últimos versos “E por vezes por vezes ah por vezes/num segundo se evolam tantos anos.”.
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Bibliografia Sumária
Mourão-Ferreira, David (2019). Obra Poética. Lisboa: Assírio & Alvim
Mourão-Ferreira, David (1983). Antologia Poética – Posfácio de Vasco Graça Moura. Lisboa: Dom Quixote.
Pereira, José Carlos Seabra (1997). “Apontamentos sobre a fortuna crítica da obra poética e narrativa de David Mourão-Ferreira”. In Colóquio Letras, n.º 145/146. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (pp. 407-434).
Rodrigues, Urbano Tavares (1997). “David Mourão-Ferreira e a Europa: um esteta do amor e da morte”. In Colóquio Letras, n.º 145/146. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (pp.120 – 124).
Sumário
- A mulher apresentada em diferentes retratos: a varina de Lisboa, sonhadora e despreocupada e a figura feminina que, na praia, aguarda a chegada daquele que ama, tendo dificuldade em aceitar a sua morte provável.
- A sucessão dos ciclos temporais, associados a memórias, nem sempre nítidas, de momentos irrepetíveis.
- A construção poética com vista à sua inserção na música.
- O erotismo como fator presente na poesia do autor.
Temas
Ficha Técnica
- Título: "Obra Poética" e poema "Barco Negro", de David Mourão-Ferreira
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Teresa Vieira da Cunha/ Associação de Professores de Português (APP)
- Ano: 2021