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As feiras ou exposições internacionais
As feiras ou exposições internacionais
Ensino:

Nas feiras ou exposições internacionais encena-se uma competição entre nações, capaz de mobilizar indivíduos e a sua noção de pertença colectiva, procurando-se inicialmente colocar cada país na vanguarda de um tempo linear de progresso contínuo, sobretudo das nações colonizadoras, sustentando o que fora pensado como o papel civilizador dos países ocidentais, estratificando a própria humanidade. Neste contexto, aí se mobilizaram e vêm convocando as artes, sendo as exposições internacionais momentos fundamentais para a divulgação de opções estéticas e técnicas artísticas.

No século XIX estabelece-se um conjunto de instituições, com o museu e as feiras ou exposições internacionais à cabeça, onde se mostrava uma visão do mundo fundada na ciência como forma de ordenação racional da natureza e da existência. Mundividência que pensava o progresso como o caminho inexorável de uma humanidade em constante evolução positiva.

Articuladas com a ciência e o progresso, novas formulações políticas careciam de modelos de orientação de comportamentos e de percepções do mundo que substituíssem ou, pelo menos, complementassem práticas repressivas. Procurava-se actuar sobre o imaginário colectivo, afirmando a nação e a identidade nacional através dos percursos expositivos, ao mesmo tempo que eram veiculadas regras de conduta na esfera pública associadas a um novo entendimento do indivíduo como cidadão.

Por conseguinte, ao percorrer a feira e o museu, cada indivíduo via e simultaneamente encarnava o caminho de uma humanidade e de uma nação em evolução permanente, de que o presente era o culminar.

Pavilhão português na feira Internacional de Paris de 1937.

Assim, na organização de feiras ou exposições internacionais encenava-se uma competição entre nações, capaz de mobilizar indivíduos e a sua noção de pertença colectiva, procurando colocar cada país na vanguarda daquele tempo linear de progresso contínuo.

Esta encenação terá diversos episódios ao longo do século XIX e XX, iniciando-se geralmente pela Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações, realizada em 1851, em Londres, num edifício propositadamente construído para o efeito, o Crystal Palace.

Este edifício demonstrava por si só as possibilidades e o avanço tecnológico inglês no trabalho industrial do ferro e do vidro. Inovação que se repercutirá na arquitectura das grandes metrópoles através de soluções construtivas que permitirão a construção em altura e que, com a invenção do elevador no ano seguinte, levará à edificação dos primeiros arranha-céus. Construção de arranha-céus que, de resto, integrava essa mesma competição entre países e cidades, cada qual tentando superar todos os anteriores. 

À exposição inglesa de 1851 responderá a França de Napoleão III com a Exposição Universal de 1855. Nesta exposição integraram-se já as artes como campo de disputa pela hegemonia mundial, procurando aí afirmar-se em definitivo França e Paris como farol cultural do mundo. E se na Exposição Universal de 1889, com que se comemoravam os 100 anos da Revolução Francesa, se entrava pela Torre Eiffel, que se fixará como símbolo da cidade, do país e da modernidade francesa, na de 1900 afirma-se a Arte Nova, faz-se o reconhecimento oficial das práticas pictóricas associadas aos impressionistas e dá-se largo destaque às novas técnicas cinemáticas.

Aí tem lugar a exibição de filmes dos irmãos Lumiére, uma primeira experiência de coordenação de som e imagem (recordando-se que o cinema sonoro apenas chega aos cinemas comerciais em 1927), e a simulação de uma viagem de balão num edifício especialmente concebido para a esta finalidade, o Cinéorama.

Mas a cada exposição não correspondia apenas e só a afirmação do país organizador. Ainda em Paris, em 1937, na Exposição Internacional de Artes e Técnicas aplicadas à Vida Moderna, dar-se-á o confronto simbólico entre a Alemanha Nazi e a URSS, cujos pavilhões se encontravam frente a frente.

Neste contexto fortemente nacionalista, é ainda na exposição de 1937 que o recém instituído Estado Novo procurará mostrar-se internacionalmente, edificando um pavilhão desenhado por Francisco Keil do Amaral (1910-1975), estando a participação portuguesa sob responsabilidade do Secretariado Nacional de Propaganda e do seu diretor, António Ferro. Recolhendo vários prémios na exposição de 1937, a imagem externa do país e do regime estará novamente nas mãos do SPN, ainda que sem o mesmo sucesso, nas exposições de São Francisco e Nova Iorque, realizadas em 1939 e entretanto ensombradas pelo eclodir da II Grande Guerra. 

No ano seguinte, entre Junho e Dezembro de 1940, tem lugar em Portugal a Exposição do Mundo Português, realizada em Belém, em Lisboa. Com o propósito de comemorar o duplo centenário da fundação (1143) e restauração da independência (1640), ali se celebrava a nação, fazendo-se do Estado Novo o herdeiro e continuador de um passado imperial que convocava também as colónias para firmar a sua grandeza futura.

Consequência imediata da II Grande Guerra, o seu impacto internacional será diminuto, consistindo igualmente na apresentação de um projecto político que, face aos desenvolvimentos após a guerra mundial, dificilmente poderia sustentar a sua ambição autoritária e enquanto potência ultramarina.

Porém, a imagem de uma nação imperial era condizente com uma marca que atravessou as feiras e exposições internacionais até meados do século XX. Aquele tempo linear e progressivo no qual se baseava a afirmação das nações e, entre estas, sobretudo as nações colonizadoras, sustentava o que fora pensado como o papel civilizador dos países ocidentais, estratificando a própria humanidade. Entendimento hierarquizado do homem que conheceria precisamente na II Grande Guerra o seu episódio mais extremo, o Holocausto.

Síntese

  • Nas feiras ou exposições internacionais encena-se uma competição entre nações, capaz de mobilizar indivíduos e a sua noção de pertença colectiva.
  • O imaginário colectivo era construído pela colocação de cada país na vanguarda de um tempo linear de progresso contínuo, sobretudo das nações colonizadoras.
  • A primeira feira internacional, a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações tem lugar em Londres, em 1851.
  • Ao longo da história das feiras ou exposições internacionais, em diversos momentos se mobilizaram novas técnicas artísticas e opções estéticas.

Temas

Ficha Técnica

  • Título: As feiras ou exposições internacionais
  • Tipologia: Explicador
  • Autoria: Associação de Professores de História/André Silveira
  • Ano: 2021
  • Imagem: Ilustração do Cinéorama, Exposição Universal de Paris, 1900 - Luis Poyet