“O Delfim”, de José Cardoso Pires
Através de um estilo e de uma técnica de construção muito próprios, é retratado o Portugal oprimido dos anos 60 do passado século. Trata-se de uma época de censura contra qualquer discurso que se oponha ao poder. Através de um microcosmos – a localidade da Gafeira –, frequentado pelo narrador participante na qualidade de caçador, o romance vai-se construindo através de imagens que se encaminham para a mudança. O nevoeiro, constante no cenário, é representativo desse tempo prestes a aproximar-se do fim. A sociedade que se antevê renovada é insinuada através de alegorias, como a do festim das enguias e a do fogo e a do desaparecimento de personagens específicas, o que sugere a destruição de um tempo passado. O caráter purificador das alterações que se vão sucedendo, acena com a novidade de um tempo que poderá estar próximo, mesmo que só em aspirações.
Resumo
O romance centra-se num crime cometido numa pequena localidade, a envolver duas mortes misteriosas, a de D. Mercês, esposa de um habitante influente da região, Tomás da Palma Bravo, e a do criado Domingos.
Supõe-se que o responsável pelo desaparecimento de D. Mercês seja o abastado engenheiro Tomás, conhecido como “o Delfim”.
Partindo da situação trágica, o narrador-personagem tenta desvendar o sucedido recorrendo, para tal, a memórias associadas à conhecida família, com quem conviveu. Com este intuito, procura recolher informações junto dos habitantes da aldeia.
Destacam-se dois tópicos do conjunto complexo da obra: a desmontagem do espírito de Tomás, o engenheiro marialva, incapaz de se adaptar a novas convenções; e a lagoa da Gafeira, simbolicamente representada como o espaço que permite a travessia ensombrada da ditadura rumo a uma desejada era democrática, pois o espaço líquido deixa de ser uma área destinada a um círculo favorecido para, ao longo do romance, passar a ser acessível a todos, sem exceção.
Personagens
Tomás da Palma Bravo, de uma linhagem com raízes ancestrais na região, é o senhor da casa junto à lagoa. Detentor de uma mentalidade tradicionalista, é apreciador de festas e de excessos. O marialvismo que evidencia, traduz-se no modo de encarar as mulheres com sobranceria e paternalismo, bem como na atitude de detentor de opiniões incontestadas.
Mercês, a esposa, leva uma vida solitária na mansão, preenchendo o tempo com atividades ociosas, tais como tricotar em frente ao televisor e fumar estendida no sofá. Apesar de tentar expressar opiniões pessoais, acaba por ser pouco valorizada.
Domingos, o criado de origem africana, aparentemente dócil e fiel servidor da família, revela, ao longo do romance, que a obediência servil é, a título pessoal, desgastante, embora aceite com passividade as imposições a que se encontra sujeito.
O narrador é um amante da caça, deslocando-se periodicamente de Lisboa rumo à aldeia. Esta atividade leva-o ao convívio com os donos da mansão, com quem passa serões a beber e a conversar.
A dona da pensão onde se hospedam os caçadores, é uma mulher “carregada de gorduras e de lutos”, atenciosa para com os hóspedes, conhecedora dos habitantes locais.
O padre novo demonstra uma opinião livre que gosta de partilhar com o escritor-caçador, discutindo aspetos relacionados com a conjuntura política e social. A troca de ideias entre ambos denota cumplicidade e acerto na visão que partilham.
Temática e texto
A trama que envolve duas mortes por explicar – a de Maria das Mercês e a de Domingos –, não se constitui como espaço central do romance. O importante não é desvendar-se um crime, o que cabe ao romance policial, género exterior à presente obra. A tessitura narrativa é atravessada por cenários, pensamentos, fragmentos de opinião e imagens que, obedecendo a uma estrutura e a uma linguagem complexas, se tornam verdadeiro desafio para o leitor.
O Delfim e a principal localidade onde decorre a ação traduzem a ambiência de um país censurado, cercado de barreiras. Palavras e ideias, muitas vezes subentendidas através do que não fica explícito, denunciam a opressão vivida no período do Estado Novo.
Através de referências à lagoa, envolta em névoa, e ao fumo que se evola do festim das enguias, é reforçada a ideia do que permanece camuflado, não podendo ser afirmado com clareza.
Na pensão, morada temporária do narrador durante a época da caça, existe um livro intitulado Monografia do Abade, que conta a história da região. Para além deste exemplar, há um outro, no seio da família proeminente da terra. Trata-se de uma leitura premonitória consultada pelo hóspede temporário da pensão dos caçadores. Nas linhas desta obra encontra-se a referência a orgias romanas que parecem amaldiçoar a aldeia, aqui considerada como que uma imagem dos tempos ditatoriais em que decorre a ação.
Com a morte da dona da casa senhorial, encontrada nas águas da lagoa, e desconhecendo-se o paradeiro de Tomás da Palma Bravo, o local torna-se pertença popular – a autorização para caçar nas imediações deixa de ser da responsabilidade da ilustre família. Maria Lúcia Lepecki refere-se às alterações sofridas neste espaço como metáfora da apropriação do território pelo povo.
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O romance de Cardoso Pires não se inscreve na corrente do neorrealismo, pois afasta-se da temática que divide a sociedade em exploradores e explorados. A inovação no processo ficcional, através de tudo o que se entrecruza, decorre de uma montagem de escrita, reforçada pela cumplicidade que o narrador estabelece com os leitores.
Não se limita a presente obra ficcional a um documentário sobre uma época pois, com o crime denunciado, pretende-se salientar um estrato social em decadência. A vasta engrenagem de construção, exigente para o leitor, explica que O Delfim tenha sido acolhido pela crítica como o romance-chave do autor.
Bibliografia Sumária
Pires, José Cardoso (1968). O Delfim. Lisboa: Moraes Editores.
Lepecki, Maria Lúcia (1977). Ideologia e imaginário: ensaio sobre José Cardoso Pires. Lisboa: Moraes Editores.
Matter, Michelle Dull (2011). “O Delfim e a sedutora linguagem da revolução”. In Convergência Lusíada, n.º 25 (pp.152-163).
Petrov, Petar (2003). “O Realismo e os ‘Realismos’ da obra de José Cardoso Pires”. In Scripta, vol.6 (pp.282-293).
Pires, Ana Cardoso e Rita Cardoso (2017). “Ler é poder encontrar um mundo inteiro em quatro páginas”. In Palavras n.º 52-53. Lisboa: Associação de Professores de Português (pp.9-23).
Sumário
- A construção inovadora do romance através de uma engrenagem complexa, a exigir uma maior implicação do leitor.
- O papel do narrador enquanto personagem e cúmplice dos destinatários do romance.
- A simbologia dos espaços e das atividades de participação coletiva.
- O recurso a imagens e alegorias em tempos de censura.
- A dualidade simbólica: opressão e mudança.
Temas
Ficha Técnica
- Título: "O Delfim", de José Cardoso Pires
- Área Pedagógica: Português - Educação Literária
- Tipologia: Explicador
- Autoria: Teresa Vieira da Cunha/ Associação de Professores de Português (APP)
- Ano: 2021